Lafcadio Hearn

 

A vida de Lafcadio Hearn não deixa de ser estranha como toda sua produção literária. Ele nasceu em 1850, na ilha jônica de Santa Maura e faleceu em Tokyo, em 1904. Por parte da mãe, sua ascendência era árabe, normanda, espanhola e italiana; por pai, era anglo-irlandesa.

Estudou nos colégios católicos da Inglaterra e França, e aprendeu cedo a rezar em italiano e grego demótico. Sua vida iria tomar um rumo diferente aos 19 anos, quando a sua família conheceu a miséria e ele quis se mudar para os Estados Unidos.

Perambulando pelas ruas de Nova York e Cincinnati, chegou a passar fome. Ao ser contratado na redação da revista Enquirer, a sua carreira de escritor começou a tomar rumo. Hearn tinha talento para a literatura. O seu modo sarcástico de ver as coisas ia ao encontro da vida difícil que levava. Casou-se com uma negra, Aletha Foley, de quem iria se separar três anos depois, mas cuja aventura custou-lhe o emprego no Enquirer.Ao perceber a hipocrisia americana da chamada “Idade do Ouro”, em 1887, refugiou-se em Martinica, e logo depois cruzou o oceano até chegar ao Japão. Hearn apresentava certas características físicas que causavam mal estar nos americanos, quem sabe, originado daí todo o preconceito. Ele media 1,57 metros de altura, olhos desiguais, um deles cego e afundado em seu crânio, o outro míope e saltando para fora. No Japão ninguém ligava para isso; a sua estatura era igual a de qualquer japonês, e sua aparência chamava atenção como a de qualquer outro estrangeiro.

No Japão, Hearn encontrou seu elo perdido: o passado. O povo provinciano, as casas de madeira, as ruas estreitas, os becos, tudo isso o fascinava. Em Matsue, onde ficou, os habitantes demonstravam-lhe afeto. Ele tinha sido enviado ao Japão para escrever artigos para uma editora americana, mas logo o contrato foi desfeito e Hearn abandonado à sua própria sorte. A saída foi ensinar inglês nas escolas oficiais de Matsue. Ao desposar Setsu Koizumi, filha única de uma família de guerreiros, Hearn tinha decidido viver para sempre no Japão. A família Koizumi era poderosa, possuía muitas propriedades e era leal ao imperador. Hearn se tornou, em pouco tempo, respeitado pelos Koizumi a ponto de ser adotado como filho, e poder assim, naturalizar-se japonês. Passou a partir de então a se chamar Yakumo Koizumi.

Hearn teve três filhos e uma filha. Foi um ótimo marido e pai, um professor excelente e um súdito fiel do império. Após o idílio de Matsue, Hearn foi viver em Kumamoto, Kobe e Tokyo. A sua carreira universitária foi barrada por causa de intrigas internas no Ministério da Educação e ele chegou a odiar o governo japonês, assim como ao seu povo.

Contos de kaidan

Muitas obras de Hearn são cartas trocadas com os amigos do exterior. Mas nos livros escritos por ele, nunca foi mencionado algo que viesse a ofender a integridade do povo que o adotou como igual. Dos 16 livros de sua autoria, um deles possui relevância: “Japan na Attempt at Interpretation”, que faz parte das conferências que proferiu nas universidades americanas. Outras são obras menores, mas de uma originalidade fora do comum.

Hearn resgatou em forma de literatura o lado obscuro do Japão, os costumes populares, as manifestações que lhe pareciam estranhas. Em “Kwaidan” (Kaidan) ele seleciona os contos de assombração que mais lhe fascinava, contado muitas vezes por Setsu. No Japão, por ser um país tão pequeno e homogêneo, o povo vive um mundo próprio, sobrecarregado de fantasias e seres sobrenaturais. Na pureza dessas manifestações, Hearn capta a força de expressão do povo japonês.

O ensaísta Malcom Cowley, em “Facetas de la Critica”, coloca que, “para ele, as palavras eram pedras de David contra Golias; eram os conjuntos mágicos que o protegiam em um mundo de inimigos”. Escrevia vários rascunhos, que ia deixando de lado, num processo contínuo de revisão. Ele chegou a confessar que essa experiência era sempre dolorosa. O seu sofrimento iniciava-se ao entrar em seu escritório, quando parecia tomado por espíritos de outro mundo, que vinham atormenta-lo. Os seus gemidos eram abafados pelos gritos do pequeno Kazuo, seu filho, que entrava no escritório num galope só. Mas nada disso o incomodava. Hearn escrevia com a cabeça dobrada e inclinada para a esquerda, encostando o seu olho míope a 15 centímetros do manuscrito. Ele gostava de trabalhar à noite, com a luminosidade de um facho leitoso de uma lamparina de azeite. Quando estava inspirado, ele não percebia o tempo passar e, pela manhã, quando Kazuo e sua mãe se dirigiam ao local de trabalho, percebiam que o chão estava coberto de mosquitos mortos cheios de sangue. Mas ele dizia não ter percebido nada.

No auge de sua produção, quando chegou a escrever um livro por ano, se esforçava tanto, dando o melhor de si, que acabou provocando sua morte. Hearn foi enterrado após a recomendação do corpo por um bispo budista, no cemitério dos Koizumi.

Um dos contos de kaidan

Juroku-zakura

Em Wakegori, na província de Iyo, havia um velho, famoso e misterioso pé de cerejeira, chamado Juroku-zakura, ou “cerejeira do décimo sexto dia”, porque florescia todos os anos no décimo sexto dia de janeiro, enquanto as outras cerejeiras aguardavam a primavera para florescer.

A árvore estava no jardim de um samurai, de quem teria recebido o espírito. O samurai, quando criança, tinha brincando sob a árvore, e antes disso, seus pais, avós e demais antepassados tinham se pendurado nos ramos floridos, estação pós-estação, por mais de cem anos.

O samurai envelheceu e havia perdido todos os seus filhos. Não havia ninguém no mundo que ele pudesse amar, a não ser a velha árvore. Eis que, nem verão, a árvore definhou e morreu!

O ancião sentiu muito a sua perda. Os amigos arrumaram uma cerejeira nova e plantaram no jardim esperando confortar-lhe a dor. Ele ficou agradecido e fingiu estar feliz. Mas o seu coração não se confortava.

Certo dia teve uma idéia que poderia salvar a árvore: transferir sua vida à planta. Sozinho no jardim curvou-se diante da cerejeira retraída e conversou com ela dizendo “Agora eu imploro que floresça mais uma vez, porque vou morrer por ti”. Debaixo da árvore morta, ele estendeu um lençol branco e cobertas. Realizou um hara-kiri (suicídio com espada) segundo o código dos samurais. Seu espírito foi para a árvore, que floresceu naquele dia, 16 de janeiro.Assim, todos os anos em plena estação da neve, aquela é a única cerejeira que enche-se de flores.

Kaidan permanece inédito no Brasil. O conto Juroku-zakura foi traduzido pelo historiador Francisco Handa, que pesquisou e preparou um livro, ainda sem data para publicação, falando dos contos deixados por Lafcadio Hearn.

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