ago 312019
 

A Associação Kaigai Nikkeijin Kyokai realiza, anualmente, uma convenção reunindo os japoneses e descendentes do mundo inteiro. A primeira delas foi realizada em 1957. Este ano, que é a 60ª, será realizada nos dias 1º, 2 e 3 de outubro de 2019, em Tóquio, com previsão de participação de 20 países, dentre os quais representantes do Brasil.

Tema

Nova Era do Japão “Reiwa”e a Sociedade Nikkei como a Ponte de Internacionalização

Participantes

20 países, com a previsão de aproximadamente 200 pessoas

Programa
【1º DIA – 1 de Outubro (terça-feira)】
Local: Kensei Kinenkan
Horário:
13:30~15:00 Registro dos participantes
15:30~17:00 Cerimônia Memorial, Apresentação dos Países Participantes
Conferência Principal 
Prof. Angelo Ishii, Universidade de Musashi 
17:30~19:00 Recepção de Confraternização

【2º DIA – 2 de Outubro (quarta-feira)】
*Escolher entre a Programação A ou B

Programação A: Simpósio Internacional (Painel de Discussão)
Local: JICA Ichigaya
Horário: 10:00~17:30
Parte 1: Sessão Especial:”Experiência de 30 anos dos Nikkeis no Japão – Olhando a Internacionalização Interna da Sociedade Japonesa”
Parte 2: Museus (arquivos) Nikkei
Parte 3: Cooperação com a sociedade Nikkei
(Negócios, Cultura, Revitalização Regional)

Programação BExcursão Oficial (PDF)
※Inscrição fechada.
Local de Encontro: – Hotel Monterey Hanzomon
– Kensei Kinenkan (Nagata-cho)
Horário: 8:50~16:30
Roteiro: Koedo Kawagoe – cidade histórica preservando a cultura e atmosfera da antiga Edo, outros

Programação A e B
Local: Iikura Koukan
Horário: 18:30~19:30
Recepção de Boas vindas oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores do Japão

【3º DIA – 3 de Outubro (quinta-feita)】
Local: Kensei Kinenkan
Horário: 
10:00~10:45 Opinião dos Nikkeis “”Reiwa”Nova Era do Japão e a Sociedade Nikkei” (5 minutos de discurso) 
10:45~11:25 Concurso de Oratória dos Nikkeis do Japão
11:25~11:40 Adoção da Declaração de Proposta
12:00~13:00 Almoço com a cortesia do Presidente da Câmara dos Representantes dos conselheiros e dos Vereadores

【Evento Relacionado – 29 de Setembro (domingo)】
Local: HIT STUDIO TOKYO
Horário: 14:00~16:30 Festival do Karaoke

※Poderá haver alteração do programa de acordo com as circunstâncias.

Inscrições e detalhes: http://www.jadesas.or.jp/pt/taikai/60th.html

A origem da Convenção

Durante a Segunda Guerra Mundial, 120 mil japoneses e nikkeis da segunda geração, que viviam nas respectivas localidades dos Estados Unidos, foram alojados em campos de concentração americanos. Tendo conhecimento desta situação, o Japão enviou por meio da Cruz Vermelha, missô, shoyu, livros japoneses, entre outros artigos para este campo americano. Em setembro de 1945, no meio da confusão após a derrota do Japão, vendo a situação difícil que a população japonesa passava, sofrendo com a falta de alimentos e outros itens essenciais para o dia-a-dia, eles enviaram desde 1946 a 1952 suprimentos de ajuda denominados LARA, com alimentos como leite em pó e vestimentas para sua pátria, como sinal de agradecimento pelos artigos enviados aos campos de concentração nos Estados Unidos.

LARA é o nome da organização de apoio na Ásia que foi estabelecida, centrada em uma entidade cristã e União dos Trabalhadores, sendo a abreviação de Licensed Agencies for Relief in Asia (Agências Licenciadas para Apoio na Ásia). A contribuição através do envio de suprimentos LARA, correspondeu ao equivalente a mais de 40 bilhões de ienes na época, em 1952. Dentre eles, cerca de 20% ou 8 bilhões de ienes de todos os suprimentos de ajuda, foram contribuições feitas pela comunidade nikkei do exterior. Ela iniciou suas atividades com a autorização do Comitê de Controle de Ajuda de Washington em junho de 1946. E assim, não apenas nos Estados Unidos, mas também no Canadá, México, Brasil, Argentina e outros países, passaram a se criar organizações nikkeis para ajudar o Japão, tendo suas atividades intermediadas pela Cruz Vermelha de seus respectivos países. No final de 1956, com a adesão do Japão ao quadro das Nações Unidas, em gratidão ao caloroso compatriotismo apresentado pelos nikkeis por meio do envio dos suprimentos de ajuda, os parlamentares japoneses juntamente com outras entidades, decidiram realizar em Tóquio, a Confraternização dos Nikkeis do Exterior alusiva à adesão do Japão ao quadro das Nações Unidas (1ª Convenção) em maio de 1957.

A partir da segunda convenção em 1960, ela passou a ser denominada Convenção dos Nikkeis e Japoneses no Exterior, e vem sendo realizada anualmente a partir da terceira convenção, realizada em 1962.

maio 132019
 


Mayu Miyazaki guardou as bagagens e se acomodou na apertada poltrona do Boeing da Qatar, em Narita, com destino a São Paulo. Olhou para cima e viu outros passageiros, todos desconhecidos, assentando suas bolsas, mochilas e sacolas. Cada passageiro tinha sua história, é claro, e o dia do embarque deve ter sido corrido para a maioria, mas esse dia 10 de abril tinha sido muito longo para essa menina de apenas 16 anos de idade.

No momento do famoso discurso

Há apenas algumas horas ela estava deixando o centro do palco do grande salão do Kokuritsu Gekijô (Teatro Nacional), de Tóquio, sob uma salva de calorosos aplausos, com um público de mais de 1800 pessoas, formado por deputados, professores e grandes empresários do país. Ela, uma brasileira, trineta de japoneses (5ª geração – gosei) por parte da mãe, e neta (3ª geração – sansei) por parte do pai, discursou naquele ambiente solene, para todo o Japão. Era a Cerimônia de Celebração pelos 30 anos de Entronização do Imperador Akihito, na verdade, um evento de despedida e homenagem ao casal imperial, que em 20 dias deixaria o trono para o príncipe Naruhito.

Mayu foi a última a ser chamada para discursar, aumentando o nervosismo da espera. Antes dela, oito pessoas discursaram, todos homens, e nenhum deles era jovem ou inexperiente. Pelo contrário, eram destacados formadores de opinião, como o professor Shinya Yamanaka, prêmio Nobel de Medicina, e o ator e diretor de cinema Takeshi Kitano. O primeiro-ministro Shinzo Abe e o Hiroaki Nakanishi, presidente da poderosa Federação Econômica (Keidanren) também falaram antes dela.

É certo que todos os convidados desfilaram belos discursos, mas a Mayu foi a única pessoa a falar sem levar o texto escrito. Na escola em São Paulo, ela teve a chance de praticar a oratória em japonês, mas nunca falou para um público tão grande e nunca se preparou para falar durante cinco minutos. E se o público esperava um discurso cheio de palavras e entonações erradas, ficou muito surpreso com a perfeição da dicção e a escolha cuidadosa das palavras. Foi um discurso impecável, e ao contrário dos discursos mornos que jovens japoneses costumam fazer, ela conseguiu transmitir emoção, talvez uma manifestação do seu lado brasileiro. Representando a comunidade japonesa de fora do país, ela disse que seus antepassados trabalharam duro, mas nunca puderam retornar ao Japão e presenciaram situações tristes em sua vida no Brasil. Mas graças a eles, ela pôde ter uma vida melhor e estudar. Lembrando a visita que fez ao casal de imperadores, ela disse: “Se os meus antepassados tivessem tido a oportunidade de falar com o casal imperial certamente se encheriam de lágrimas de felicidade. As mãos quentes da imperatriz e o olhar gentil do imperador nos deram coragem e força”. Ao final de suas palavras, ela diz “Eu sou brasileira e amo o Brasil, mas o Japão está dentro de mim”.

A apresentadora de TV e jornalista internacional, Kaori Arimoto, assistiu à Cerimônia e se emocionou com o discurso de Mayu. Ela conseguiu autorização junto ao comitê organizador do evento para exibir a apresentação da brasileira no seu programa Toranomon News, e lamentou que nenhuma outra emissora tenha exibido esse trecho do evento, que ela considerou o mais valioso daquele dia.

Depois de mais de 30 horas de viagem, foram apenas quatro dias no Japão, o que é muito cansativo, mas Mayu sabia que tinha mesmo valido a pena. Na viagem de volta, ela sentiu principalmente o alívio por ter cumprido a maior missão de sua vida: representar o Brasil, a comunidade nikkei e a comunidade brasileira que vive no Japão.

Tudo começou muito antes

Mayu na formatura do curso de japonês

Apesar do convite para a participação da Mayu Miyazaki naquele memorável evento tenha chegado no mês de março, tudo começou muito tempo atrás. Atual estudante do 3º ano do Colégio Etapa, ela estudou no Colégio Oshiman e estuda o idioma japonês na Escola Shokaku, do mesmo grupo. O colégio Oshiman realiza uma excursão a cada dois anos para o Japão, sempre no final do ano. Mayu fez parte do último grupo, que viajou em dezembro de 2018. Antes disso, a professora pediu para que a Mayu escrevesse uma mensagem ao casal imperial para mandar para o Japão. A jovem estava no período de férias e confessou que estava com preguiça, mas acabou escrevendo uma mensagem de felicitações pelo ano novo, avisando que iria integrar o grupo de 32 alunos da escola que visitaria o Palácio Imperial, e que gostaria de se encontrar com o casal. Ela levou o texto para a escola e a professora corrigiu. Voltou e reescreveu por cinco vezes e depois passou a limpo, caprichando bem nas letras.  A carta foi lida pelo Imperador, e no dia dois de janeiro deste ano, o grupo foi recepcionado pelo próprio casal imperial, o que só havia acontecido uma única vez em 22 visitas feitas em 44 anos pela escola. 27 mil pessoas estavam no jardim do Palácio Imperial para ver de longe o breve discurso e aceno do imperador. E o grupo do Oshiman foi convidado a entrar no salão do Palácio. Durante essa visita, a imperatriz Michiko chamou a Mayu Miyazaki pelo nome e fez questão de falar com ela. “Na hora eu estava muito nervosa, não sabia que seria chamada pela imperatriz, e só consegui agradecer”, explica a estudante.

A imperatriz Michiko comentou que “no idioma japonês o kanji é difícil e as palavras também são difíceis, mas deve se esforçar para aprendê-los. E agradeça a seus pais e seus antepassados por esse aprendizado”. Já o imperador Akihito falou “Espero que seus sonhos se realizem. Soube que quer ser uma médica”. “Foi muita emoção. Percebi que o imperador e a imperatriz são pessoas muito generosas. Todo o mundo estava chorando no final, tal a emoção em poder encontrar com eles”, conta Mayu.

Como resultado desse encontro, a Mayu recebeu depois um convite para participar da Cerimônia de Celebração pelos 30 anos de Entronização do Imperador Akihito. A professora Mayumi Kawamura Madueño Silva chefiou a delegação da Oshiman e também  acompanhou a Mayu na Cerimônia de Celebração.

Durante um campeonato de Kendô representando a província de Mie com o irmão Shogo.

O caminho para a fluência no idioma

“Tudo o que você planta você colhe, um dia terá retorno. Eu acho que todos os jovens precisam estudar”, disse Mayu numa entrevista ao vivo no canal Afrodeks TV de Leandro Neves dos Santos, quando ele pediu uma mensagem aos jovens brasileiros que trabalham no Japão.

De fato, conforme explica o pai, Carlos Yukito Miyazaki, estudar tem sido uma rotina na vida, não só da Mayu, mas de toda a família Miyazaki. Carlos e Márcia, os pais, são ambos descendentes de originários da província de Kumamoto e ex-bolsistas da JICA – Japan International Cooperation Agency, da turma de 1996~1998. Carlos havia sido bolsista também em 1991, e a Márcia acaba de retornar da bolsa de curta duração de revitalização através da culinária na comunidade nikkei, também da JICA.

Presbítero da Igreja Evangélica Holiness, Carlos conta que o casal assistiu a uma palestra onde se ressaltava a importância das pessoas serem bilíngues. Resolveram ser radicais para aplicar esse conceito. Em casa, passaram a se falar somente em japonês. A Mayu tinha então três anos de idade. “A primeira providência foi colocar os filhos no yochien (jardim da infância) do Colégio Itatiaia, e pedimos que eles ficassem junto com as crianças japonesas, filhos de expatriados. Em poucos meses ela ficou fluente. Depois mantivemos o hábito de somente assistir TV japonesa (animês, novelas, etc). Essa regra foi mantida até a Mayu completar dez anos”, comenta Carlos.  “Fizemos questão que ela estudasse japonês seguindo os livros utilizados nas escolas japonesas”, completa o pai, demonstrando a dedicação para que seus filhos, Mayu (16 anos), Shogo (15) e Aya (13) ficassem fluentes em japonês. No caso da Mayu, o seu êxito precisa ser dividido com uma grande figura, a professora Marico Kawamura, hoje com 91 anos de idade. Desde o início, essa fundadora do Colégio Oshiman acreditou no potencial da Mayu e fez questão de dar aulas de japonês pessoalmente, nos últimos seis ou sete anos, ensinando os detalhes de cada ideograma e seus significados nos poemas clássicos.

Fora isso, a família frequenta a igreja onde a maioria é nikkei. A Mayu treina kendô na Associação Cultural Mie Kenjin do Brasil, onde conseguiu o segundo “dan”. E, pela Associação Mie, ajuda todos os anos no estande de alimentação do Festival do Japão.

Com toda essa ligação com a comunidade nikkei, Mayu pensa em fazer o curso superior no Japão, ou mesmo a pós-graduação, e pretende trabalhar como médica no Brasil e no Japão. Vamos torcer para que os sonhos dela se concretizem. Capacidade e torcida ela têm.

Francisco Noriyuki Sato

Jornalista e editor, professor de História do Japão.

fev 082019
 

Pesquisa realizada por uma empresa independente com 1.212 pessoas de ambos os sexos acima de 20 anos de idade, em todo o Japão, em 2015, revelou que o beisebol continua sendo o esporte preferido, seguido pelo futebol e o tênis de campo. Entre as novas modalidades adicionadas nos próximos Jogos de Tóquio, 70% disseram preferir o beisebol e o softbol, seguidos pelo karatê e o boliche.

Um esporte que surgiu entre os samurais, o kyudô ainda é praticado nas escolas, principalmente pelas meninas © Lilac and Honey

O beisebol é, há muito tempo, o esporte nacional do Japão. Em quase todas as escolas, o campo ocupa um bom pedaço do terreno disponível e, talvez por isso, os jogadores mirins são vistos em qualquer lugar. O campeonato nacional colegial da modalidade, conhecido como Koshien, que é o nome do campo onde se realizam os principais jogos, é um grande evento de verão e é transmitido para todo o país.
O beisebol foi introduzido em 1872 e a liga profissional foi fundada em 1936. Em 1950, devido a grande quantidade de times, a mesma foi dividida em Liga Central, com as equipes mais antigas, e a Liga Pacífico, com os clubes novos da época. Ambas continuam até hoje. Atletas americanos, cubanos, nicaraguenses e até brasileiros são convidados a jogar nesses disputados torneios, porém, o regulamento permite a participação de apenas quatro jogadores estrangeiros por time.

Principal modalidade no Brasil, o futebol só se tornou popular há pouco mais de 20 anos, mais exatamente em 1992 quando a J-League foi fundada reunindo 18 times. Apesar disso, a história revela que um grupo de amadores disputou os Jogos Olímpicos de Berlin, em 1936, com a camisa do Japão, derrotando a então poderosa Suécia por 3 a 2. Já na categoria feminina, o futebol é pouco praticado e há poucos torcedores. Isso poderá mudar dependendo dos próximos resultados, pois a equipe feminina japonesa conquistou surpreendentemente a Copa do Mundo de 2011, vencendo os Estados Unidos na final.

Ekiden: tradicionais maratonas realizadas para todas as faixas etárias © Naoko

Yamate Park, em Yokohama, foi o primeiro parque em estilo ocidental construído no Japão, em 1870. Reduto de estrangeiros, o local sediou a primeira partida de tênis em solo japonês em 1876. E, dois anos depois, foram construídas quatro quadras no local, marcando a chegada oficial do esporte naquele país.

Quando foi proposto ensinar a educação física no estilo ocidental nas escolas, o tênis de campo foi uma das modalidades escolhidas. Na época, as bolas eram importadas e caras, sendo substituídas por aquelas flexíveis de borracha. E assim surgiu o soft tênis, que ainda hoje é muito praticado em escolas. Desde o sucesso de Kei Nishikori, que chegou a ser o número 4 do mundo em 2015, a modalidade ganha bastante destaque na mídia, o que poderá levar ao surgimento de outros bons atletas.

Correr e correr

Embora os japoneses não sejam os campeões da modalidade, a maratona é bastante praticada no Japão. Assim como no Brasil, as corridas de rua são populares e contam com muitos participantes. Por ser um país que prioriza o trabalho em grupo, era natural que o povo nipônico tivesse preferência por modalidades em equipe. É o que acontece com a corrida de revezamento. A primeira, conhecida como Ekiden, foi criada em 1917 pelo jornal Yomiuri Shimbun, em um percurso de 508 km ligando Quioto a Tóquio. Atualmente, diversos Ekiden são realizados em todo o Japão e o percurso varia bastante.

No campeonato nacional ginasial, por exemplo, cinco meninas correm 12 km no total, enquanto seis garotos perfazem um percurso maior, de 18 km. Já no campeonato colegial, cinco meninas devem correr 21 km e os sete meninos correm o dobro, 42,195 km. No campeonato interestadual, nove mulheres correm 42,195 km, enquanto sete homens correm 48 km. Há outros campeonatos universitários e regionais, sendo que o percurso mais longo é o Kyushu Ekiden, com 1064 km, cuja prova começou em 1951, sendo o percurso mais longo do mundo. A prova é realizada em dez dias. Os campeonatos são bastante populares e os principais contam com transmissão ao vivo pelas TVs.

A prática do kendô foi proibida em 1946 pelas forças de ocupação, mas voltou a ser praticado em 1950 © Youkaine

Apesar de não ser a modalidade mais praticada nas escolas, o basquete vem ganhando destaque desde que Yuta Yabuse, de 1,75 metros, trocou a equipe Toyota Alvark, onde disputou a Liga Japonesa, pelo Dallas Mavericks da NBA americana, em 2003. Ele trocou de time várias vezes e retornou ao Japão em 2008.

Seis anos mais jovem e mais alto, Takuya Kawamura, de 1,93 metros, seguiu do Japão para os EUA em 2009 para jogar no Phoenix Suns e hoje defende o Yokohama B-Corsairs no Japão. Além deles, merece destaque o desenhista Takehiko Inoue que, entre 1990 e 1996, produziu a série de mangá “Slum Dunk”, um grande sucesso, que alcançou mais de 120 milhões de exemplares vendidos, enfocando o basquete como tema. O sucesso desse mangá teria levado muitas a crianças a se interessarem pela modalidade. Inoue foi homenageado em 2010 pela Japan Basketball Association, na comemoração do 80º aniversário da entidade.

Sendo um dos países mais estruturados do mundo, todos os atletas e visitantes que presenciarão os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, esperam encontrar uma organização exemplar e uma perfeição em todos os detalhes quanto aos serviços locais. Dedicados como são, é possível que os japoneses consigam atender às expectativas dos visitantes e não farão feio. Por outro lado, não é possível, evidentemente, prever as medalhas que os japoneses conquistarão em seu território. Para isso, além do desempenho individual, contará com o investimento feito ao longo dos anos nas escolas e nas categorias infantis de cada modalidade disputada.

Autor: Francisco Noriyuki Sato, jornalista e editor. Escrito em Julho de 2017

Veja a continuação:

A prática esportiva começa bem cedo no Japão

fev 072019
 

 

Crianças participam do Undoukai nas escolas e se preparam para provas de corrida © Chris Lewis

Cinquenta e três anos depois dos primeiros Jogos Olímpicos realizados em Tóquio, em 1964, o Japão se prepara para o novo e grande desafio, as Olimpíadas de 2020. Estarão os atletas japoneses preparados para essa responsabilidade?

Yabusame, esporte dos samurais, continua sendo preservado como tradição cultural © Miki Yoshihito

A expectativa é grande. Se em 1964 eram 20 as modalidades disputadas, no próximo Jogos serão 28, além de outras 18 introduzidas em caráter experimental. A concorrência também aumentou. Em 1964 eram 93 países e 5 mil atletas, e para 2020 espera-se a participação de 206 países e 11 mil participantes, a exemplo do que foi nos Jogos realizados no Rio de Janeiro. Para os atletas japoneses, a expectativa é ainda maior, levando-se em conta o peso da responsabilidade de um ótimo desempenho na competição sediada pelo seu próprio país.

Aliás, as Olimpíadas de 1964 deixaram um gosto amargo no coração dos japoneses justamente no judô, esporte originário do país e que estreou naquele ano na competição. Das quatro categorias disputadas, três foram vencidas pelos japoneses, o que era esperado, mas na categoria livre (independente do peso), o gigante holandês Antonius Geesink derrotou o grande campeão e ídolo local Akio Kaminaga na luta decisiva e ficou com a medalha de ouro.

Foi uma notícia em que ninguém acreditaria se não fosse a transmissão pela TV para todo o território nacional. Tominaga tinha 1,79 metros e 102 kg, enquanto o holandês media 1,98 metros e 120 kg, mas acreditava-se que o atleta japonês conseguiria superar a diferença de peso entre eles. Tominaga parou de lutar no ano seguinte, devido à doença na retina. Geesink trocou o tatame pelo ringue de luta-livre e atuou no Japão em parceria com os renomados lutadores da época. Obteve depois o título de doutor com uma tese sobre o judô na Universidade Kokushikan e chegou ao 10º dan.

Em 1964, havia o esforço coletivo de mostrar o novo Japão ressurgido das cinzas da Segunda Guerra Mundial, e todos se esforçaram nesse sentido, principalmente os atletas, que conseguiram 16 medalhas de ouro, classificando o país como o terceiro melhor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com 36 medalhas, e da União Soviética, com 30.

Para 2020, os atletas carregam a responsabilidade de levantar o ânimo dos japoneses, que não conseguiram se recuperar após o estouro da Bolha Econômica (Lehman Shock) de 2008, e do trágico tsunami e do consequente vazamento radioativo de 2011.

O treinamento começa cedo

Seis anos antes das Olimpíadas de Tóquio, em 2014, a imprensa japonesa já prestava atenção nas competições nacionais infantis e aos talentos que essas revelavam. Diziam que era importante saber quem se destacava aos 12 anos, porque ele teria 18 em 2020 e poderia ser um representante do Japão.

E a imprensa teve muito trabalho naquele ano, pois há competições nacionais de quase todas as modalidades no Japão, já que o esporte começa a ser praticado na escola primária e continua nos níveis superiores, onde quase sempre há um bom espaço e uma boa estrutura. Quando se consegue um bom resultado em uma modalidade, a escola recebe um investimento maior na área e com isso se torna uma referência para as crianças que se sobressaem no esporte. E muitos disputarão uma vaga naquela escola que pode torná-lo um vencedor.

O undoukai, gincana poliesportiva, ainda é o principal evento esportivo anual das crianças © Miki Yoshihito

A Nippon Junior High School Physical Culture Association (Associação Japonesa de Cultura Física do Ensino Fundamental / Ginasial) realiza um levantamento anual sobre as atividades esportivas praticadas pelos alunos e alunas separadamente. Em 2017, constatou-se que entre 10.478 escolas ginasiais, em 8.071 as meninas praticam voleibol, enquanto que em 7.659 jogam basquete, em 6.990 o soft tênis, em 6.313 o atletismo, e em 5.856 o tênis de mesa. Já entre os meninos, em 8.639 instituições praticam o beisebol, em 7.151 o basquete, em 6.990 o futebol, em 6.668 o tênis de mesa e em 6.426, o atletismo. Apesar da estatura média do japonês não ajudar, o basquete é muito praticado nas escolas, tanto pelos meninos como pelas meninas, pelo fato de ser uma modalidade que pode ser praticada em quadra coberta.

Cabe lembrar que, devido a variações climáticas dentro do país, alguns esportes de quadras cobertas são mais praticados em locais de temperatura baixa, privilegiando também as modalidades de inverno, como o esqui e o hóquei no gelo. Algumas delas, por exigirem instalações apropriadas, são menos praticadas , mas é possível encontrar escolas equipadas e que participam de campeonatos regionais, caso de naguinata, kyudô, rugby, luta-livre, patinação artística e arco e flecha. Em algumas escolas do ensino fundamental é possível praticar o sumô, esporte símbolo do Japão.

É tudo estatística!

Quase todos os alunos das escolas japonesas do primário e do ginásio participam do exame anual de força física organizado pelo governo. Trata-se de um levantamento de aptidão física, importante para nortear os treinamentos nos cursos de educação física e nos esportivos opcionais. Pelo levantamento, concluiu-se, por exemplo, que as crianças que fazem brincadeiras físicas, como pular cordas, conseguem melhor desempenho quando praticam esportes.

Estatísticas mostram outros dados interessantes. Os meninos do ensino primário que gastam 7 horas ou mais em atividade física por semana, por exemplo, conseguem arremessar uma bola de softbol mais longe. No caso deles, alcançam a média de 25,8 metros, enquanto aqueles que dedicam menos horas conseguiram a média de 19,04 metros. Mais da metade dos meninos do ginasial consegue correr 50 metros em 7,93 segundos, se praticarem mais de 7 horas de atividade física por semana. Aqueles que praticam menos tempo conseguiram alcançar a média de 8,53 segundos. Como esses dados são levantados no país inteiro, servem para cada escola ajustar o treinamento de seus alunos comparando com os seus resultados anteriores e com os dados de outras instituições. Além disso, serve para mostrar que se deve praticar alguma atividade física evitando o sedentarismo.

Autor: Francisco Noriyuki Sato, jornalista e editor. Escrito em Julho de 2017

Veja a continuação:

Os esportes mais populares do Japão

jan 312019
 

Oficialmente, os japoneses se aposentam aos 65 anos de idade. Quem trabalha no Japão, sendo japonês ou estrangeiro, é cadastrado no sistema previdenciário nacional e passa a recolher um valor para o fundo de aposentadoria. Ele é composto de uma pensão nacional (Kokumin Nenkin), que paga um valor anual e igual para todos, e a pensão de bem-estar (Shakai Hoken), que varia de acordo com a renda do indivíduo.

O Kokumin Nenkin é recolhido pela empresa contratante ou indivíduo autônomo, no valor aproximado de 150 dólares por mês. Aos 65 anos, se a pessoa contribuiu durante 40 anos, passará a receber, uma vez por ano, cerca de 7.500 dólares. O valor será menor se o tempo de contribuição for menor.
Para o Shakai Hoken, o valor da contribuição mensal é de cerca de 18% da remuneração atual, sendo metade paga pelo empregador e a outra metade pelo indivíduo. Quando o trabalhador completa 65 anos de idade, passa a receber, além do Kokumin Nenkin, esse benefício como complemento da aposentadoria. Essas pensões são pagas também em caso de invalidez ou falecimento do segurado.

Para quem está aposentado hoje no Japão, que trabalhou a vida toda numa grande empresa, o valor das pensões deve ser suficiente para se viver bem. Mesmo levando-se em conta o aumento do imposto sobre mercadorias (que era de 5%, subiu para 8% e deverá chegar em breve para 10%), que elevou o custo de vida, mas não aumentou a renda dos aposentados, a renda dessa pessoa é considerada muito boa. Esses aposentados vivem bem, e constituem uma boa parcela dos turistas do país, aqueles que vão a estâncias climáticas e visitam cidades históricas. Eles representam mais de 43% de todos os turistas japoneses.

Os japoneses calculam que, após o fim da bolha econômica, nos anos 1990, os empregos vitalícios ficaram cada vez mais raros, e só uma parcela da população conseguiu recolher valores elevados para o fundo de aposentadoria, ou fez investimentos que hoje proporcionam renda.
Ou seja, muitos dos que esperam conseguir aposentadoria nos próximos anos deverão se contentar com uma renda baixa se comparada com a geração dos seus pais.

Mais de 90% das pessoas concluem o curso colegial e mais de 40% concluem o curso superior entre os japoneses. Mesmo esses mais estudados não podem ter certeza se estarão empregados num futuro próximo. Isso faz com que muitos jovens não mais procurem um emprego fixo. Preferem fazer trabalhos temporários, num restaurante, por exemplo, recebendo por hora e sem terem um compromisso com a empresa. Largam o trabalho para viajar, e quando voltam procuram outro serviço. Assim consegue-se viver hoje, mas como não contribuem para o sistema previdenciário, não terão nenhuma assistência e nem uma aposentadoria.

Outro grande problema é a diminuição da população jovem. Com os custos elevados da educação, muitos casais preferem não ter filhos ou se contentam em ter apenas um. Isso faz com que a pirâmide social fique invertida, inviabilizando a própria previdência, se medidas radicais não forem tomadas. Em 2012,  população com mais de 65 anos era de 30,3 milhões de pessoas, ou seja, 24,2% do total da população. Já a população de 0 a 29 anos de idade representava 34,7 milhões de pessoas, ou 27,5% do total. Se mantido o atual ritmo, o Japão terá em 2050, 50% da população ativa e 50% inativa.

Para melhorar essa difícil conta, o governo japonês vem tomando, desde 2000, uma série de medidas que achataram o valor dos novos benefícios e aumentaram o valor dos recolhimentos. Outra grande mudança foi na idade para se aposentar, que foi elevada de 60 para 65 anos.

A existência de tantos idosos requer estruturas próprias e serviços de apoio no caso deles viverem separados dos filhos ou netos. Na tentativa de tratar a necessidade de assistência dessas pessoas, em 1997 a Assembleia Legislativa do Japão (Dieta) aprovou a Lei sobre Seguro Assistencial de Longo Prazo, que levou à criação do sistema de seguro assistência ao idoso em 2000. Esse sistema recolhe contribuições previdenciárias obrigatórias de uma ampla parcela da população (todas as pessoas com 40 anos ou mais) e fornece serviços como atendimento em domicílio a idosos, visitas a centros de assistência, ou permanências de longo prazo em casas de repouso para pessoas que sofrem de demência senil ou estão confinadas à cama por motivos de saúde.

A necessidade de se recorrer a esses serviços deve ser certificada pelos escritórios das cidades, municípios e povoados responsáveis por administrar o sistema de seguro assistência para idosos. O financiamento do sistema de seguro de assistência ao idoso do Japão conta com fundos dos governos nacional (25%), local (12,5%), distrital (12,5%), e das contribuições previdenciárias (50%).

Assistência Médica não é gratuita

Em 2009, as despesas com os idosos representavam um terço do total gasto pelo governo em assistência médica. Os gastos com pessoas com 75 anos ou mais, em média, são cinco vezes mais elevados do que com os adultos com menos de 65 anos. Todos os cidadãos japoneses estão inscritos no sistema nacional de saúde e têm direito ao “sistema de acesso livre”, que permite aos pacientes escolher os locais de atendimento de sua preferência.

Nesses hospitais, clínicas, laboratórios, consultórios médicos e dentários, o segurado deverá pagar sempre uma parte do seu tratamento. Aqueles com 75 anos ou mais devem pagar apenas 10% do total gasto, ficando o restante a cargo da seguridade social. Quem tem entre 70 e 74 anos contribui com 20%, e aqueles com até 69 anos de idade devem pagar 30% do valor gasto. Quem, apesar de estar aposentado, tiver uma receita comparável a uma pessoa ativa, deverá contribuir com 30% da despesa, como um trabalhador normal. A aquisição de remédios indicados pelos médicos também entram nessa conta, e os beneficiários pagam apenas uma parcela dos custos dos remédios, seguindo a mesma proporção do restante do tratamento. No caso de medicamentos considerados extremamente caros, o governo arca com a totalidade do seu preço.

Evidentemente, o governo precisa desembolsar uma parte dos custos médicos do seu orçamento anual, porque o valor recolhido dos contribuintes não é suficiente para pagar todas as despesas. E se discute se o governo deveria mesmo continuar pagando os remédios caríssimos, já que esses só beneficiam uma minoria. Entretanto, o sistema tem funcionado a contento, oferecendo bons serviços a custos relativamente baixos. Levantamentos recentes indicam que o custo médico do japonês é em média a metade do norte-americano.

A qualidade da assistência médica contribui para a longevidade. Levantamentos mostram que a população do mundo vivia bem menos na década de 1950. Estatísticas dão conta que a média era de apenas 48 anos de idade. O índice é baixo porque a mortalidade infantil era elevada. Em 2010, graças ao avanço da medicina, essa média mundial havia subido para 67,2 anos.

A expectativa de vida do japonês é a mais altoa do mundo, segundo a World Health Organization, num levantamento entre 183 países realizado em 2015. As mulheres devem viver em média até 86,8 anos e os homens até 80,5 anos no Japão. A população idosa é maior nas áreas rurais, pois os jovens saem para estudar e trabalhar nas cidades maiores. Hoje, nos arrozais que encontramos em todo o Japão, é comum avistar apenas idosos cuidando da plantação. Os equipamentos facilitam, e aqueles que se encontram com mais saúde não se importam com o trabalho na roça, já que estão acostumados.
O Brasil figura no 67º lugar dessa lista internacional, com expectativa média de 78,7 anos para as mulheres e de 71,4 nos para os homens. O último lugar da lista é ocupado por Serra Leoa, país africano de quase 6 milhões de habitantes. Lá, a mulher espera  viver 50,8 anos e o homem apenas 49,3 anos.

Um novo conceito em condomínio de idosos: Share Kanazawa

Autor: Francisco Noriyuki Sato / NSP Editora – escrito em Julho/2016.

jan 252019
 

Uma sala de aula somente com estudantes estrangeiros na Universidade de Kanazawa © NSP Editora

Boas e disputadas universidades. Mas isso não é mais garantia de um bom emprego.

Apesar de toda essa pressão sobre o aluno, o nível geral das universidades japonesas está caindo na média internacional. O levantamento “World University Rankings” lista as 980 melhores universidades do mundo. Até 2014, a Universidade de Tóquio se manteve em 23º lugar, sendo considerada a melhor da Ásia. Em 2016, a mesma universidade despencou para a 39ª colocação, sendo superada pela Universidade Nacional de Cingapura e duas chinesas.

Outras universidades japonesas aparecem em posições inferiores e, mesmo assim, estão bem. Basta comparar com a Universidade de São Paulo, que com mais de 80 mil estudantes, é a melhor posicionada na América Latina. A USP está entre a colocação 251 e 300, na lista liderada pela inglesa Oxford.

No país onde o ensino é levado a sério, críticos afirmam que, apesar dos rigorosos exames para se entrar numa universidade japonesa, depois de aprovados os alunos se sentem no paraíso. Ou seja, falta um exame rigoroso para diplomar os universitários e por isso, estudando ou não, todos serão aprovados. Mais uma vez, na área de exatas, onde há experiências em laboratório e atividades experimentais, os alunos tendem a se esforçar mais. Os universitários japoneses, embora sejam os campeões em matemática e ciências exatas, não apresentam bons resultados nas áreas de humanas e linguística, se comparados com os de outros países desenvolvidos. Além disso, estudiosos do exterior afirmam que o sistema de ensino japonês não desenvolve o espírito crítico dos estudantes. Talvez isso nem fosse necessário numa época de economia estável.

Sem uniforme e com horários mais flexíveis, as universidades parecem ideais para incentivar a criatividade. Entretanto, as aulas costumam ser expositivas © NSP Editora

Até o final da bolha econômica, por volta do final dos anos 90, todos os universitários tinham certeza de conseguir emprego. As grandes empresas contratavam os alunos das melhores universidades antes mesmo de se formarem. Não importava a área de formação. A partir do momento em que eram contratados, recebiam treinamento e ocupavam uma função, faziam carreira e ficavam na mesma empresa até se aposentarem. Hoje tudo mudou, muitos com formação superior não chegam a ter o primeiro emprego, e assim, sobrevivem às custas de trabalhos temporários, que são relativamente bem remunerados.

Embora todos os japoneses continuem investindo alto na educação formal de seus filhos, o resultado final não tem sido animador para os recém-formados.

Por outro lado, na última década, as universidades japonesas têm investido em trazer alunos estrangeiros para suas salas. Fenômeno da globalização? Na verdade não. É que a população japonesa vem diminuindo num ritmo acelerado e isso reflete também no número de alunos matriculados. As vagas que sobram são preenchidas pelos estrangeiros. Como existe a barreira do idioma, as universidades aceitam alunos com domínio do inglês e com um nível razoável de comunicação em japonês. Há aulas intensivas de japonês especialmente para esses alunos poderem acompanhar as aulas.

Felizmente, o Japão tem sido atraente para muitos estudantes estrangeiros. Hoje, em certas universidades, 20% dos alunos não são japoneses.

Autor: Francisco Noriyuki Sato

Leia os textos anteriores:
O sistema de ensino que forma um país desenvolvido – 1
O custo do ensino no Japão hoje – 2

Conhecendo uma escola colegial japonesa
Conhecendo uma outra escola colegial japonesa

jan 242019
 

O custo alto do ensino faz com que os pais tenham menos filhos

A tradicional indústria Kanko, que existe desde 1854, e é especializada em fabricar uniformes escolares, apresenta sua coleção: Casaco de malha, camisa branca, saia e o sapato totalizam US$ 320 © Kanko

Há muitos anos, é obrigação de todos os cidadãos cursarem o ensino primário, de seis anos, e o ginasial, de três, totalizando nove anos de ensino obrigatório. Esse ensino é gratuito nas escolas públicas, onde também recebe os livros escolares. Mas as despesas com refeições, transporte, atividades extra-curriculares, como judô, excursões e uniforme, são pagas pelos pais. E não é barato. Em uma escola primária pública, se paga em média US$ 850 no ato da matrícula (só uma vez em seis anos), mais os gastos que somam US$ 2,5 mil por ano. Continuando na escola pública, nos três anos seguintes, a matrícula será também de US$ 850, mas os gastos anuais sobem para US$ 3.750. Se a opção for por uma escola particular, o custo será de US$ 2,5 mil de matrícula e mais US$ 10 mil anuais nos seis anos do primário e também nos três anos do secundário básico (ginasial).

A malinha de couro, conhecida como “randoseru”, pode custar US$ 1,4 mil dependendo da marca. As aulas começam em abril, mas os modelos de US$ 600 já estavam esgotados em dezembro

O custo não muda muito no nível colegial: US$ 1,6 mil de matrícula (só uma vez para os três anos) e gasto anual de cerca de US$ 4,2 mil em escola pública e US$ 3,3 mil de matrícula e US$ 8,7 mil por ano na escola privada. O curso colegial, embora não seja obrigatório, é concluído por 98% da população, o que deve ser a taxa mais elevada do mundo.

Já o aluno que frequenta uma universidade pública nacional precisa desembolsar cerca de US$ 2,5 mil de matrícula (uma vez apenas) e US$ 4,2 mil  por ano, independente do curso escolhido. Em uma universidade privada, esse custo será bem maior. Cerca de US$ 2,5 mil de matrícula e US$ 7,5 mil por ano, se optar pela área de Humanas. Na área de Exatas, o custo é maior: US$ 9,2 mil de matrícula e US$ 10 mil por ano. Na área de medicina, o custo é ainda maior: US$ 16 mil de matrícula e US$ 31 mil por ano. O curso de medicina ainda tem a desvantagem de ser mais longa, com seis anos para se formar.

Uniformes com grife são evidentemente mais caros. Esse blazer tem a assinatura Elle e custa US$ 200. A saia da mesma marca custa US$140 © Elle

Com isso, é possível entender a pressão dos estudantes em alcançar uma universidade pública. Como a concorrência é muito grande, é necessário estudar muito, frequentando cursos de reforço fora do horário escolar. E isso também custa caro, em geral, de US$ 350 a US$ 500 por mês. Calcula-se que metade dos estudantes do segundo ano colegial esteja frequentando esses cursos de reforço. Há cursos preparatórios para entrar no ginásio e também para o colégio. Bons ginásios e colégios preparam melhor o aluno para os exames vestibulares, acreditam os pais.

Os pais começam a economizar desde o nascimento do filho, para ter uma disponibilidade financeira para pagar as escolas. Na época da bolha econômica, isso parece não ter sido um problema, mas hoje, eles encontram dificuldades. Isso também explica porque os pais não querem ter filhos. Assim, apesar da longevidade dos idosos, a população japonesa diminuiu quase 2 milhões em apenas nove anos.

Autor: Francisco Noriyuki Sato

Leia também:

O sistema de ensino que forma um país desenvolvido – 1

O ranking do Japão entre as universidades do mundo – 3

jan 232019
 

Mesmo num passeio no final de semana, sendo uma atividade promovida pela escola, o uso do uniforme é obrigatório © Rage Z

Considerado um dos melhores do mundo, o sistema educacional japonês sofre rigorosas críticas dentro de seu próprio país. Mas é inegável que, mesmo sem ser perfeito, sempre atendeu as necessidades de seu povo, que é obcecado em querer que seus filhos estudem, elegendo a educação como prioridade da família.

O sistema de ensino nos padrões ocidentais adotado no Japão tem menos de 150 anos. Antes disso, porém, já havia o ensino que ficava por conta dos “terakoyá”, escolas de templos budistas, e “juku”, cursos particulares. O primeiro ensinava a ler, a escrever, e o ábaco (soroban), além de ensinamentos budistas. O “juku”, em geral, ensinava a ler e a escrever, mas se dedicava a outras matérias, como geografia, matemática, etiqueta e conhecimentos gerais.

Havia também “juku” especializado em cursos práticos para o trabalho, algo parecido com a escola técnica. Conta-se que em 1867 haviam 75 mil “terakoya” e 6,5 mil “juku” registrados no país, o que demonstra o grande interesse pelos estudos, mesmo em uma época em que o transporte era precário. Cinco anos depois, foi adotado o ensino no estilo francês e as principais universidades foram criadas a partir dessa data, como a Universidade de Tóquio, construída em 1877.

É interessante notar que a preocupação do país era de se equiparar às potências internacionais, pois ficara mais de dois séculos sem contato com o exterior, que já alavancava o progresso com máquinas a vapor e trens. O Japão precisava alcançar o desenvolvimento tecnológico do Ocidente e, por isso, renomados professores foram trazidos do exterior para as faculdades. Nessa época valorizou-se o ensino de engenharia, química, física e medicina, fato que se reflete até hoje. O Japão tem 26 laureados com o Prêmio Nobel, e dentre esses, 23 venceram nessas matérias.

As crianças vão sempre a pé para suas escolas e sem os pais © John Gillespie

O funcionamento da escola

Crianças entre 3 anos completos e 6 anos podem frequentar o jardim da infância. Aos 6 anos podem ingressar no ensino básico, de seis anos. Depois, o ensino intermediário, de três anos, que corresponde ao antigo curso ginasial no Brasil. Os ensinos básico e o intermediário são obrigatórios para o japonês. Se alguma criança com menos de 15 anos estiver na rua no horário das aulas, cabe ao policial perguntar o motivo e procurar seus pais. Dos 15 aos 18 anos, estarão frequentando o ensino médio, que pode ser normal ou profissionalizante.

O ano letivo no Japão começa no início de abril. No ensino básico, as salas têm de 30 a 40 alunos. Nos dias de semana, as aulas normalmente começam às 8h30 e terminam às 15h50. No primário, as aulas duram 45 minutos, com uma pausa de 10 minutos entre uma aula e outra. A partir do ginásio, elas duram 50 minutos. Oficialmente há 35 semanas de aula por ano.

Há nove matérias regulares no ensino básico japonês: língua japonesa, estudos sociais, matemática, ciência, estudos ambientais, música, arte e artesanato, conhecimentos domésticos, educação física e economia doméstica. Nessa última, os alunos aprendem a cozinhar coisas simples e fazer algumas costuras. A maioria das escolas ministra aulas de inglês, shodô (caligrafia) e haiku (poesia curta).

Apesar do ensino seguir o mesmo padrão em todo o território japonês, há algumas pequenas variações. No colégio Nisui, como praticamente em todas as outras, as aulas começam às 8h30 e continuam até 16h30. Depois, começam as atividades chamadas de “club”, que são as extracurriculares, como as esportivas de tênis, beisebol, badminton, equitação e tênis de mesa, e culturais, como culinária, jornalismo, shodô e coral. Essas atividades duram duas horas em média.

Para se ingressar nas melhores universidades é preciso fazer o curso preparatório, que vai das 19 às 22 horas, diariamente. Tempo para jogar game, assistir animê e entrar no Facebook? Muito pouco, pois os jovens precisam fazer as lições de casa. “Vocês assistem animê?”, perguntou uma estudante inglesa fazendo intercâmbio no Japão a uma colega japonesa. “Eu assistia quando era criança, mas não tenho mais tempo”, respondeu a menina de 15 anos. Nos finais de semana também há atividades dentro da escola e fora dela, por isso é comum ver estudantes uniformizados nas ruas, mesmo aos domingos.

Ocorreram algumas reformas de ensino nas últimas décadas e em 2002 aconteceu uma mudança maior, que resultou na eliminação das aulas aos sábados (até 1990, o aluno japonês tinha 240 dias letivos, contra 180 dos americanos), para diminuir a pressão sobre os estudantes do colegial. Uma matéria nova foi introduzida no 2° e no 3° anos. É o “Sogo”, que pode ser traduzido como “estudos integrados”. Aqui, o assunto depende do interesse de cada um, e não tem a ver com as matérias exigidas nos exames vestibulares, mas são e serão importantes na vida de todos. Exemplos: meio-ambiente, globalização e tecnologia da informação. Algo semelhante está para ser introduzido também no Brasil.

As próprias crianças servem o almoço © Anabelle Orozco

Todo o mundo já deve ter visto um vídeo onde as crianças limpam a escola. De fato, desde cedo elas aprendem a manter as salas limpas e a tarefa continua até o final do ensino médio. Na verdade, não há muita sujeira para limpar. As crianças e também os funcionários e professores guardam seus sapatos no armário logo na entrada e vão para as salas com um calçado que é usado somente dentro da escola. A limpeza é feita por revezamento entre os alunos, que levam menos de 15 minutos para a tarefa. Eles consideram a limpeza um fato natural. Já que utilizam o local, consideram óbvio limpar e deixar o ambiente pronto para a próxima aula ou turma. Antes deles, os seus pais e avós também fizeram o mesmo.

Outro fato que chama a atenção é o almoço servido pelos próprios alunos. Uma funcionária traz o carrinho com a comida da cozinha e as crianças já se posicionam para servir os colegas. Cada uma delas já sabe onde, o que e como deverá servir. No final da refeição, a arrumação do local também é feita pelos alunos. No caso de escolas com poucos alunos, cada um traz a sua marmita (obentô) e ela é saboreada na sua própria carteira.

Sabe-se que de todos esses estudantes colegiais, cerca de 53% irão disputar vagas em 220 faculdades públicas e 500 particulares. E outros 18% irão para escolas especializadas ou faculdades de curta duração (de dois anos).

Outra função da escola

Sendo um país que coleciona desastres naturais, há uma grande preocupação de todos no Japão quanto à segurança. A direção das escolas recomenda que todos os alunos optem por estudar próximos das suas casas, principalmente no ensino básico. Isso porque a escola rapidamente é transformada em local de refúgio em caso de desastres naturais. No caso da região ficar inundada e sem os transportes públicos, todos saberão onde procurar seus familiares.

Sendo a escola pública ou particular, a maioria vai a pé ou de bicicleta. Crianças maiores poderão ir de trem ou metrô, pois a distância pode aumentar pela opção por melhores escolas. Mesmo assim, ninguém leva o filho em carro particular ou perua contratada. As crianças menores vão juntas, sendo que a que mora mais longe passa na casa das colegas. Há um traçado para ir à escola, e fazem sempre o mesmo trajeto.

Autor: Francisco Noriyuki Sato – jornalista e editor

Veja a continuação:

O custo do ensino no Japão hoje – 2

O Japão no ranking das universidades do mundo – 3

Conhecendo uma escola colegial japonesa

Conhecendo uma outra escola colegial japonesa

jul 242018
 

Esse vídeo faz muito mais sucesso do que o vídeo oficial das Olimpíadas Tokyo 2020. Tokyo Bon 2020 (Makudonarudo) é uma mistura de ritmo e instrumentos tradicionais japoneses com o bom humor do estrangeiro, que ao pedir informações sobre restaurantes em Tóquio, se depara com palavras em inglês com pronúncia bem estranha: o “japanglish”. Quem já foi ao Japão sabe bem o que é isso. “Dizunilando” é Disneyland, “Kitto Katto” é Kit-Kat e “Makudonarudo” é Mc Donalds. Essas e muitas outras palavras formam a incrível letra de Tokyo Bon 2020 apresentadas pelo compositor e cantor Namewee, e a atriz e cantora japonesa Meu Ninomiya. A produção teve a participação do grupo Cool Japan TV. Em apenas dois dias, em novembro de 2017, esse vídeo atingiu a marca de 12 milhões de visualizações. Agora já ultrapassa 31 milhões, o que é um fenômeno mundial.

Namewee, nasceu na Malásia com o nome de Wee Meng Chee, de família originária do Sul da China, e se formou em Taiwan. Seu primeiro sucesso representou problemas para o artista. Em seu vídeo “I love country Negarakuku”, que seria um tema para apresentar Malásia para os turistas, ele abordou temas como a corrupção policial, serviços públicos ineficientes e políticas governamentais equivocadas, citando também as práticas muçulmanas (num país cuja maioria segue essa religião). Logo ele recebeu críticas, por falar mal do seu país e pela baixa qualidade do vídeo, feito com montagens de fotos e outros vídeos. Embora tenha tirado do ar e pedido desculpas em público, recebeu um processo do Ministério da Informação de seu país. Não foi preso por isso, por morar fora do país, mas as emissoras de rádio e tv locais pararam de exibir aquele trabalho. Por um outro trabalho crítico, chegou a ser preso na Malásia em 2016. Namewee compõe músicas  e produz filmes, atuando principalmente em Singapura, Taiwan e Coreia do Sul, tendo já conquistado vários prêmios na Ásia.

A atriz Meu (leia Me-u) Ninomiya (二宮芽生), apesar de jovem (nasceu em 1992) é uma artista experiente. Já protagonizou vários filmes, como “1000 years Princess”, com o qual venceu o prêmio de melhor atriz revelação no Festival de Cinema da Ásia, no ano passado, em Taiwan. Ela nasceu em Okinawa, no Japão, mas como seu pai é professor de artes, se mudou várias vezes, morou na infância na Alemanha e Austrália, e terminou seus estudos em Yokohama, e fala o alemão.

Tokyo Bon 2020 – Makudonarudo

Ohayo Tokyo Konichiwa
Sumimasen I’m foreigner
I don’t speak Japanese
But I love Aoi Sora
When you say Wakarimashita
I say Hitachi Toyota
Kawasaki Nintendo
Canon Sony Honda

I’m losing my way
Obasan where should I go?
Shinjuku so big
I need a Doraemon
You speak Japanglish
And show me body language
What can I do?
Where should I go? No nonono

Makudonarudo
(McDonald)
Guguru Toiletto
(Google toilet)
Kitto Katto
(Kit Kat)
Dizunilando
(Disneyland)
Takushi go Hoteru
(Taxi go Hotel)
Sebun Elebun Miruku
(7-11, Milk)
Basu Biru
(Bus, Beer)
Sutabakkusu
(Starbucks)

mar 212018
 

By si.robi – Osaka US16 (17), CC 表示-継承 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=52043942

A imprensa japonesa em geral não deu muito destaque, mas foi surpreendente a vitória da Naomi Osaka sobre a russa Daria Kasatkina, a 20ª do mundo, na final do BNP Paribas Indian Wells, na Califórnia. Foi uma vitória fácil, que terminou com a contagem de 6-3 e 6-2. Para chegar à final, a representante do Japão venceu outras jogadoras de peso, como a Maria Sharapova e Karolina Pliskova, ambas ex-número 1, e venceu a romena Simona Halep, atual número 1 do ranking mundial.

De pai haitiano e mãe japonesa, Naomi nasceu na cidade de Osaka. Coincidentemente, Osaka é também o sobrenome da sua mãe, cujo pai preside uma cooperativa de pesca na cidade de Nemuro, em Hokkaido. Aos três anos, sua família se mudou para Nova Iorque, e depois para a Florida, onde reside até hoje. Seu pai, que não joga tênis, incentivou a prática desse esporte às suas filhas, Mari, que atualmente tem 21 anos, e Naomi, que tem 20 anos. As duas irmãs possuem dupla nacionalidade, mas ela optou pela japonesa ao se registrar na Associação Japonesa de Tênis.

Em 2013, Naomi foi aceita como tenista profissional e em 2015 já figurava como 144ª do ranking mundial. Em outubro de 2016, foi vice-campeã do WTA Toray Pan Pacific Open, onde foi eleita como a melhor dentre as novas tenistas, e saltou para a 48ª posição no ranking. Somando a vitória obtida no Indian Wells, em 19 de março de 2018, já figura como a 22ª melhor do mundo.

Com seus 1,80 m de altura e um saque que chega a 201,1 quilômetros por hora, possui uma força que dificilmente uma outra jogadora japonesa conseguirá alcançar. Daí a importância da miscigenação.

A última conquista na Califórnia rendeu para Naomi Osaka um prêmio de 1,34 milhões de dólares, mas ela é jovem e deverá alcançar destaque ainda maior nos próximos campeonatos. No seu discurso de vencedora, ao final do Indian Wells, Naomi surpreendeu o público ao não fazer o discurso padrão das japonesas, que sempre se preocupam em falar somente o necessário e com cuidadosa escolha de palavras. Ela falou, em inglês (porque está ainda estudando japonês), de forma improvisada e agradeceu todo o mundo, inclusive a adversária e o técnico dela, e lembrou de elogiar até das meninas que catam bolas. Foi muito aplaudida.

Vamos torcer para que Naomi Osaka tenha um futuro brilhante como tenista!