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Em 1992, tudo começou com uma obra de construção de um campo de beisebol que seria administrado pela província de Aomori, no Nordeste do Japão. Os trabalhos corriam em rítmo acelerado, quando, em julho de 1994, os operários depararam com restos de um antigo e imenso pé de castanha, que media 1 metro de diâmetro, fincado no chão. Logo, os arqueólogos confirmaram que se tratava de uma ruína do período Jomon, e a obra foi paralizada imediatamente para dar início aos trabalhos de escavação. E o que descobriram ali foi surpreendente!

As ruas eram estranhamennte largas, embora não houvesse qualquer tipo de carrinho ou carroça

A dificuldade na escavação estava na profundidade e na área a ser escavada, que é muito grande, denotando que havia um povoado de razoável tamnho, e atualmente, cerca de 42 hectares foram levantados, mas a área total é muito maior, podendo aparecer novas descobertas arqueológicas.

Até aqui, a principal descoberta foi de que os habitantes do período Jomon (14.000 a.C. até 300 a.C.) não eram nômades e que não viviam somente da caça e pesca. Antes dessas reuínas, que receberam o nome de Sanmai Maruyama, serem descobertas, os livros de história consideravam que esses habitantes do período tinham uma vida coletiva, porém, primtiva do ponto de vista de conhecimentos.

Em Sannai Maruyama, descobriram que esse povoado existiu entre 3.500 a.C. até 2.000 a.C, morando no mesmo lugar por um período de 1.500 anos, o que é bastante (basta lembrar que se passaram apenas 526 anos depois da descoberta do Brasil). Os povos que vivem somente da caça e pesca são nômades porque precisam se mudar sempre que suas presas desaparecem. Aqui não, já havia o plantio de um certo tipo de arroz e outros grãos. E plantava-se castanheiras. Além do seu fruto, os nativos aproveitavam a madeira da castanheira, que cresce reta, é dura e resistente a àgua e insetos. Chega a crescer até 17 metros, e por isso era usada nas construções desse período.

Uma torre sem função clara, poderia ser uma plataforma para secar alguma coisa

O curioso é que já havia uma medida padrão, de aproximadamente 35 cm. Essa medida foi usada para calcular a distância entre as colunas das construções, inclusive da mais visível construção de madeira de Sannai Maruyama (foto), da qual não se têm qualquer informação sobre a sua finalidade. Possivelmente era de onde se avistavam a chegada dos cardumes porque o mar devia estar bem mais perto do que atualmente, já que foi encontrada uma enorme quantidade de conchas. Essa medida de 35 cm foi adotada porque era bastante prática. Era a medida do braço desde a dobra até a ponta dos dedos. O braço era curto porque esses habitantes tinham pouca estatura. Curiosamente, essa medida de 35 cm foi encontrada em outras localidades escavadas dentro do Japão.

Durante esse período, houve mudanças no estilo das construções, que foi aperfeiçoando, mas todas as residências eram circulares e pequenas, suficiente para caber uma família. Para se abrigar do frio, essas casas eram feitas escavando-se cerca de 40 cm no chão e instalando a estrutura básica de galhos de árvore no formato de cone e cobrindo com galhos menores e cascas de árvores. Havia também o uso de fogo em seu interior, para cozinhar e também para se aquecerem no inverno.

Além das casas, as demais construções eram retangulares. Havia as construções cujo piso era mais elevado provavelmente porque eram depósitos coletivos de alimentos, e havia uma construção grande e bastante curiosa que media 32m x 10m e com dois andares. No andar superior ficavam os cestos de vários tamanhos, e o andar térreo era um espaço coletivo, com vestígios de fogueira e alimentos. Deveria ser um “kaikan”, já que até hoje os japoneses vivem em casas pequenas, mas possuem espaços coletivos enormes, como escolas, associações e praças.

Além da descoberta das ruínas de Sannai Maruyama, em Aomori, o avanço da tecnologia está permitindo um grande avanço na pesquisa da história antiga do Japão. Estudos de DNA, por exemplo, permitem novas descobertas, e por isso, a história vai ser cada vez mais interessante!

Francisco Noriyuki Sato, jornalista e professor de História do Japão.