set 022021
 

Palestra gratuita on-line aborda o Culto ao Barroco Romântico no Japão.

Rococó, a estética profusamente ornamentada do século 18, uma característica da aristocracia do Antigo Regime, classificada como “decadente” e “kitsch” no Ocidente, no Japão contemporâneo é sinônimo do auge das belas artes e do romantismo ocidental. Cultuado como estilo pop art, o Rococó foi reinterpretado no Japão e passou a fazer parte da cultura e da moda contemporânea.

Fenômenos como a moda “Lolita”, “maid” cafés, a popularidade da alta confeitaria francesa e de peças teatrais ambientadas na Europa setecentista são atualmente um forte chamariz para turistas no Japão.

Mas por que o Rococó Revival moderno ocorreu justo onde era mais improvável? Para entender esse influente fenômeno do Japão contemporâneo, assista esta palestra que mostrará como história, mangás, filmes, negócios e sonhos convergiram num movimento único.

A palestrante Cristiane A. Sato, formada em Direito pela USP, autora do livro JAPOP – O Poder da Cultura Pop Japonesa é palestrante em universidades, entidades, embaixada e consulado geral do Japão, foi bolsista da JICA em 2016, na Universidade de Kanazawa, onde pesquisou sobre estética e moda japonesa. Desde 2017, ministra cursos de História do Japão.

O Culto ao Barroco Romântico no Japão
Dia 11 de setembro de 2021 - das 9 às 10h30 (horário do Brasil)
Inscrições abertas pelo Sympla e a transmissão será pelo Zoom.
Promoção Abrademi e Associação Cultural Mie
jul 222021
 

©Yusuke Kuwasa

Em 2018, 55,4% dos casais japoneses celebraram o casamento em igrejas católicas. E nem há tantas igrejas assim. São apenas 996 igrejas e capelas em todo o território japonês, contra 77.042 templos budistas e 86.648 templos xintoístas.

Os custos do casamento numa igreja católica também são visivelmente superiores, custando em média 3.962 dólares em Tóquio. Se fosse num templo xintoísta, custaria 2.638 dólares na mesma cidade.

Então, qual a razão da preferência pelas igrejas católicas?

O motivo não é religioso, já que apenas 0,35% da população é católica. E o fenômeno é recente. Nos anos 1960, apenas 2,2% dos casais optavam pela igreja católica, enquanto 84,4% se casavam em templos xintoístas e 11,1% realizaram o matrimônio sem cerimônia religiosa. Na década seguinte, as cerimônias na igreja subiram para 6,8% e na década de 1980, para 14,5%. Não há nenhuma pesquisa objetiva, mas há que se considerar o romantismo que o casamento em igreja alimenta nas japonesas, além de ser algo pouco comum na vida da maioria, sendo aquele um momento muito especial. Já uma cerimônia num templo xintoísta é comum, todas elas já passaram por ali em várias ocasiões.

Os mangás femininos publicados nas décadas de 60 e 70 podem também ter alimentado esse sonho. Embora poucos tivessem mostrado cenas de casamento em suas histórias, os mangás criaram um mundo de fantasia onde personagens com lindos cabelos cacheados vivem em palácios europeus do século 18. Foi o caso de “A Rosa de Versalhes” da Riyoko Ikeda, publicada entre 1972 e 1973 na revista semanal Margaret e alcançando sucesso incomum.

O casamento de Diana Spencer com o príncipe Charles, no dia 29 de julho de 1981, na Catedral de São Paulo, em Londres, também pode ter contribuído para aumentar esse sonho romântico nas moças do Japão. Foi decretado feriado nacional no Reino Unido e a cerimônia foi transmitida ao vivo para o mundo inteiro atingindo uma audiência de 750 milhões de pessoas, e teve grande repercussão também no Japão. Nos anos 1990, o número de casamentos em igreja católica subiu para 38,3%, e ainda que o casal real inglês tenha se separado em agosto de1996, a opção pela igreja continuou crescendo, chegando a 64,2% nos anos 2000. Nos anos seguintes, houve um decréscimo da opção pelo casamento religioso, sendo que em 2018 teve a seguinte distribuição: igreja = 55,4% e templo xintoísta = 16,9%, por causa do aumento dos casais que preferem uma cerimônia pública sem as formalidades religiosas, representando 26% dos casamentos.

Casamento pelo ritual budista

A cerimônia de casamento também pode ser realizada em templos budistas. Embora os japoneses sejam budistas em sua maioria, sempre optaram pelo xintoísmo para o casamento. A razão não é clara, mas em geral é costume reservar os templos para os cultos aos antepassados, enquanto em templos xintoístas celebra-se as fases da vida, como crescimento das crianças (7-5-3) e a maioridade (seijinshiki).

Sem uma explicação religiosa, os japoneses preferem o casamento em igreja católica por causa do romantismo contido na cerimônia, podemos concluir.

Obs.: Todos esses valores citados são apenas da cerimônia religiosa, uma vez que despesas com roupas dos noivos, maquiagem, festa, salão, filmagem, convite e outros num hotel em Tóquio pode passar dos 30 mil dólares. O casamento é muito caro no Japão.

 

Texto: Francisco Noriyuki Sato, autor de História do Japão em Mangá, Banzai – História da Imigração Japonesa, e professor de História do Japão.

>>>Saiba mais sobre “A Rosa de Versalhes”, conhecida também como “Berubara” entre os fãs 

Para entender mais sobre esse tema:

“O Culto ao Barroco Romântico no Japão”. Dia 11 de setembro de 2021, on-line, às 9 horas. Palestra com a profa. Cristiane A. Sato. Promoção da Abrademi e da Associação Cultural Mie Kenjin do Brasil. Evento gratuito.

Reserve já sua vaga pelo Sympla.

 

jul 192021
 

Em dezembro de 2014 a revista especializada “Zexy”, líder do segmento moda noiva e organização de eventos matrimoniais no Japão, publicou uma edição especial disputadíssima, que meio que “oficializou” um casamento, que nunca ocorreu: a união de Oscar de Jarjayes e André Grandier, protagonistas do mangá “A Rosa de Versalhes” da desenhista Riyoko Ikeda. O que chama a atenção neste caso é que ao invés de apresentar matérias com fotos de modelos reais a caráter em igrejas e salões decorados para a ocasião, os modelos dessa edição são personagens fictícios: desenhos de quadrinhos!

Nas últimas décadas fãs passaram a produzir ilustrações e histórias procurando realizar o sonho que Oscar e André não puderam realizar em “A Rosa de Versalhes”: se casar.

Após dezenas de anos de pedidos de fãs, a autora Riyoko Ikeda finalmente cedeu e criou as ilustrações publicadas na “Zexy”, revelando certo desconforto ao fazer esse trabalho numa entrevista: “Gastei toda minha energia para desenhar essas páginas, mas me senti tão envergonhada que não pude sequer ficar lá”. É difícil entender sentimentos contraditórios em relação a ilustrações, que embora tenham alegrado as fãs, causaram constrangimento à autora.

Capa da revista Spur de Outubro de 2014

Teorias sobre o luto falam das etapas de negação, raiva, negociação, depressão e aceitação, e o fato é que fãs de “A Rosa de Versalhes” parecem estar longe da aceitação mantendo Oscar e André vivos na lembrança e produzindo desenhos onde ambos se casam, têm filhos e uma vida normal. Pode ser que desejar que esses personagens tivessem tido um final feliz seja uma bela negação e de que ilustrações do casamento que nunca ocorreu na história original seja a manifestação definitiva do mais longo luto da história do mangá, que completa 50 anos em 2022. Mas já que o amor tudo conquista, e tendo se tornado parte da cultura popular contemporânea, o romance de Oscar e André pode literalmente alcançar a imortalidade repetindo o fenômeno previsto por Shakespeare ao final de sua peça mais famosa, pois “há de viver de todos na memória de Romeu e Julieta a triste história”.

Texto: Cristiane A. Sato, autora de JAPOP – O Poder da Cultura Pop Japonesa, NSP Editora.

Saiba mais sobre “A Rosa de Versalhes”, conhecida também como “Berubara” entre os fãs 

Para entender mais sobre esse tema:

“O Culto ao Barroco Romântico no Japão”. Dia 11 de setembro de 2021, on-line, às 9 horas. Palestra com a profa. Cristiane A. Sato. Promoção da Abrademi e da Associação Cultural Mie Kenjin do Brasil. Evento gratuito.

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jul 162021
 

Publicado pela primeira vez em capítulos semanais na revista “Margaret” de abril de 1972 a dezembro de 1973, o mangá “A Rosa de Versalhes” se tornou um imediato sucesso ao contar a história trágica da Rainha da França, Maria Antonieta, e da Revolução Francesa. O próprio mangá se tornou um marco ao revolucionar o chamado mangá feminino, antes visto com desdém pelo mercado editorial uma vez que até então os quadrinhos para meninas de 8 a 15 anos não passavam de melodramas superficiais e altamente fantasiosos.

Apesar de romancear a história com referências ao glamoroso Palácio de Versalhes e à vida de luxo da corte, o mangá também mostrou temas que hoje seriam muito politicamente incorretos para crianças, como a vida de crimes, pobreza e revolta nas favelas de Paris e a prática de corrupção, pedofilia e vícios diversos de membros da aristocracia e da igreja. Maria Antonieta é mostrada como a primeira grande vítima de fake news da história, humanizada por sua ingenuidade e redimida por seu amor incondicional aos filhos. Axel von Fersen, aristocrata sueco que foi amante da Rainha, é mostrado como a personificação da devoção e do cavalheirismo.

Os fatos históricos que culminaram na Revolução Francesa são contados no mangá sob a ótica de Oscar, filha caçula de uma tradicional família de militares criada pelo pai como homem para poder herdar os privilégios da família e de André, seu criado e amigo mais terno e leal. Ao longo da série o relacionamento entre Oscar e André evolui da amizade fraternal na infância ao amor adulto proibido pela diferença de classes sociais. Às vésperas da Revolução o ato supremo de rebeldia de Oscar e André foi assumir o amor que tiveram por toda a vida e lutar pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Por serem Maria Antonieta e Fersen personagens históricos todos já sabiam qual era o final deles, mas sendo Oscar e André personagens fictícios o destino deles era uma incógnita e o desenrolar dessa história prendia os fãs. Assim, foi um grande choque coletivo quando Oscar morreu lutando por seus ideais comandando a Queda da Bastilha e André morreu heroicamente tentando salvá-la, o que desencadeou uma crise real quando milhares de fãs manifestaram surtos de choro e sintomas de luto sincero – tudo causado por um mangá!   

Desde então “A Rosa de Versalhes” virou um cult. A história ganhou versões em teatro, TV, cinema, se espalhou pelo mundo e popularizou o estilo rococó e o setecentismo como o auge das artes do Ocidente no Japão, Taiwan e Coréia do Sul. Na Europa a série em animê foi um grande sucesso, especialmente na Itália onde gerações de senhoras ainda se lembram do impacto de “Lady Oscar”: apesar de ser um desenho animado, muitas mães assistiram a série com os filhos pois a história também cativou um público adulto. Assim como no Japão, na Itália a comoção geral e as lágrimas se repetiram: em tempos sem Internet a TV reinava absoluta e todos viam os mesmos programas ao mesmo tempo.

Para entender mais sobre o tema:

“O Culto ao Barroco Romântico no Japão”. Dia 11 de setembro de 2021, on-line, às 9 horas. Palestra com a profa. Cristiane A. Sato. Promoção da Abrademi e da Associação Cultural Mie Kenjin do Brasil. Evento gratuito.

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