jan 292026
 

Esta primeira aula do Curso Completo de História do Japão apresentará a ocupação do arquipélago japonês e o seu desenvolvimento, nos períodos Jomon, Yayoi e Kofun, a formação de reinos e o domínio da agricultura, que possibilitou a produção constante de alimentos, garantindo o aumento da população nos séculos seguintes.

O curso tem como objetivo facilitar a compreensão da cultura japonesa por meio de explicações claras sobre o passado e o presente do Japão. A programação segue o currículo de História aplicado a universitários estrangeiros no Japão e incorpora as atualizações mais recentes da reforma educacional japonesa.
É destinado a pessoas que apreciam ou têm curiosidade sobre o Japão, bem como àquelas que pretendem visitar o país no futuro — seja como turistas, profissionais, estudantes ou a negócios —, oferecendo uma base histórica que amplia o aproveitamento dessa experiência.
O curso será oferecido exclusivamente no formato presencial, com aulas aos sábados, das 14h às 16h, na sede da Associação Fukushima, localizada na Rua da Glória, nº 721, bairro da Liberdade, São Paulo.
As aulas que fazem do curso (20 aulas) são as seguintes:
Programação (sábados das 14 às 16h com um breve intervalo no meio)
– 21 fev   – Aula 01 – Ocupação do arquipélago. Períodos Jomon, Yayoi e Kofun
– 28 fev   – Aula 02 – Períodos Asuka e Nara – A família imperial
– 07 mar – Aula 03 – Período Heian
– 14 mar – Aula 04 – Período Kamakura – A origem dos samurais
– 21 mar – Aula 05 – Período Muromachi
– 28 mar – Aula 06 – Período Sengoku – guerra civil e chegada dos portugueses
– 04 abr  – Aula 07 – Período Edo 1 – isolamento do Japão
– 11 abr  – Aula 08 – Período Edo 2 – fortalecimento de uma cultura própria
– 18 abr  – Aula 09 – Período Edo 3 – abertura dos portos
– 25 abr – Aula 10 – Período Edo 4 Final – turbulência na queda de Tokugawa
– 02 mai – Aula 11 – Período Meiji – governo em torno do Imperador
– 09 mai – Aula 12 – Período Meiji – modernização e reformas
– 16 mai – Aula 13 – Período Taisho
– 23 mai – Aula 14 – Período Showa 1 antes da Segunda Guerra
– 30 mai  – Aula 15 – Período Showa 2 Segunda Guerra Mundial
– 06 jun  – Aula 16 – Período Showa 3 final – reconstrução e crescimento
– 13 jun  – Aula 17 – Era Heisei
– 20 jun  – Aula 18 – Era Reiwa e atualidades
– 27 jun  – Aula 19 – História de Okinawa – Enquanto era o reino de Ryukyu
– 04 jul   – Aula 20 – História de Okinawa – Após se tornar uma província japonesa até hoje
Há uma apostila para cada aula, que será encaminhada depois da aula pelo e-mail para todos os inscritos. Para quem não puder assistir alguma das aulas, os alunos receberão link da aula gravada em vídeo, que é do curso anterior on-line, para não perder a sequência do curso.
Esse curso, mais compacto, foi realizado em 2017 na Associação Cultural Mie para mais de 200 alunos em todas as aulas. Foi repetido em 2018 e 2019 alcançando também grande sucesso e sofreu atualizações e ampliações nos anos seguintes, e chegou a ser realizado no formato on-line durante a pandemia.
Os professores são:
– Cristiane A. Sato, formada em Direito pela USP, autora do livro JAPOP – O Poder da Cultura Pop Japonesa e palestrante em universidades, Sesc, Senai, Embaixada do Japão, Japan House, Fundação Japão e Consulado Geral do Japão, estudou na Universidade de Kanazawa como bolsista da JICA em 2016, e fez curso na área de quimonos em Tóquio em 2022, também pela JICA. Faz parte da Comissão de Atividades Literárias do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, e é diretora cultural da Associação Fukushima Kenjin do Brasil.
– Francisco Noriyuki Sato, formado em Jornalismo e em Publicidade pela USP, autor dos livros História do Japão em Mangá, Banzai – História da Imigração Japonesa no Brasil, entre outros, é presidente da Abrademi e editor do site culturajaponesa.com.br. Foi também bolsista da JICA, em 2014, e ministrou palestras em universidades e museus do Japão em 2016 e 2019. Escreve artigos para o Japão. Atual presidente da Associação Fukushima Kenjin do Brasil.
A iniciativa é da Associação Fukushima Kenjin do Brasil com apoio da Abrademi (Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações) e do Consulado Geral do Japão em São Paulo.
Para qualquer comunicação, utilize o whatsapp da Fukushima Brasil: +55 11 3208-8499   ou o e-mail abrademi@abrademi.com
jan 272026
 

Em 1992, tudo começou com uma obra de construção de um campo de beisebol que seria administrado pela província de Aomori, no Nordeste do Japão. Os trabalhos corriam em ritmo acelerado, quando, em julho de 1994, os operários depararam com restos de um antigo e imenso pé de castanha, que media 1 metro de diâmetro, fincado no chão. Logo, os arqueólogos confirmaram que se tratava de uma ruína do período Jomon, e a obra foi paralisada imediatamente para dar início aos trabalhos de escavação. E o que descobriram ali foi surpreendente!

As ruas eram estranhamente largas, embora não houvesse qualquer tipo de carrinho ou carroça

A dificuldade na escavação estava na profundidade e na área a ser escavada, que é muito grande, denotando que havia um povoado de razoável tamanho, e atualmente, cerca de 42 hectares foram levantados, mas a área total é muito maior, podendo aparecer novas descobertas arqueológicas.

Até aqui, a principal descoberta foi de que os habitantes do período Jomon (14.000 a.C. até 300 a.C.) não eram nômades e que não viviam somente da caça e pesca. Antes dessas ruínas, que receberam o nome de Sannai Maruyama, serem descobertas, os livros de história consideravam que esses habitantes do período tinham uma vida coletiva, porém, primitiva do ponto de vista de conhecimentos.

Em Sannai Maruyama, descobriram que esse povoado existiu entre 3.500 a.C. até 2.000 a.C., morando no mesmo lugar por um período de 1.500 anos, o que é bastante (basta lembrar que se passaram apenas 526 anos depois da descoberta do Brasil). Os povos que vivem somente da caça e pesca são nômades porque precisam se mudar sempre que suas presas desaparecem. Aqui não, já havia o plantio de um certo tipo de arroz e outros grãos. E plantava-se castanheiras. Além do seu fruto, os nativos aproveitavam a madeira da castanheira, que cresce reta, é dura e resistente a água e insetos. Chega a crescer até 17 metros, e por isso era usada nas construções desse período.

Uma torre sem função clara, poderia ser uma plataforma para secar alguma coisa

O curioso é que já havia uma medida padrão, de aproximadamente 35 cm. Essa medida foi usada para calcular a distância entre as colunas das construções, inclusive da mais visível construção de madeira de Sannai Maruyama (foto), da qual não se têm qualquer informação sobre a sua finalidade. Possivelmente era de onde se avistavam a chegada dos cardumes porque o mar devia estar bem mais perto do que atualmente, já que foi encontrada uma enorme quantidade de conchas. Essa medida de 35 cm foi adotada porque era bastante prática. Era a medida do braço desde a dobra até a ponta dos dedos. O braço era curto porque esses habitantes tinham pouca estatura. Curiosamente, essa medida de 35 cm foi encontrada em outras localidades escavadas dentro do Japão.

Durante esse período, houve mudanças no estilo das construções, que foi aperfeiçoando, mas todas as residências eram circulares e pequenas, suficiente para caber uma família. Para se abrigar do frio, essas casas eram feitas escavando-se cerca de 40 cm no chão e instalando a estrutura básica de galhos de árvore no formato de cone e cobrindo com galhos menores e cascas de árvores. Havia também o uso de fogo em seu interior, para cozinhar e também para se aquecerem no inverno.

Além das casas, as demais construções eram retangulares. Havia as construções cujo piso era mais elevado provavelmente porque eram depósitos coletivos de alimentos, e havia uma construção grande e bastante curiosa que media 32m x 10m e com dois andares. No andar superior ficavam os cestos de vários tamanhos, e o andar térreo era um espaço coletivo, com vestígios de fogueira e alimentos. Deveria ser um “kaikan”, já que até hoje os japoneses vivem em casas pequenas, mas possuem espaços coletivos enormes, como escolas, associações e praças.

Além da descoberta das ruínas de Sannai Maruyama, em Aomori, o avanço da tecnologia está permitindo um grande avanço na pesquisa da história antiga do Japão. Estudos de DNA, por exemplo, permitem novas descobertas, e por isso, a história vai ser cada vez mais interessante!

Francisco Noriyuki Sato, jornalista e professor de História do Japão.

jul 202024
 

Há 60 anos, de 10 a 24 de outubro de 1964, foram realizados os Jogos Olímpicos de Tóquio. Esses Jogos seriam em 1940, mas haviam sido cancelados por causa da Guerra Sino-Japonesa, que começou em 1937. Derrotados e destruídos pela Segunda Guerra Mundial, o Japão recuperou sua autonomia apenas em 1952, e dali em diante foi um trabalho árduo para todos os japoneses, rumo à recuperação econômica do país. Os jogos de 1964 eram a oportunidade de mostrar ao mundo que o Japão já estava bem. Havia o esforço coletivo para melhorar o país, e nesse sentido, o desempenho dos atletas naquela competição era muito importante, principalmente para encorajar as pessoas a lutarem por uma vida melhor.

Nessa época, a prática esportiva fora das escolas era um luxo, não havia patrocinadores, e para aqueles que pretendiam competir, havia a possibilidade, dependendo da modalidade, de ser contratado por alguma empresa para trabalhar e treinar parte do dia. Outra possibilidade eram as universidades, algumas das quais investiam no esporte.

Kokichi Tsuburaya em São Paulo, preparando-se para a Corrida de São Silvestre, em 31/12/1964. O original, autografado por ele, está na Associação Fukushima Kenjin do Brasil. Kokichi escreveu em katakana: São Silvestre.

Kokichi Tsuburaya era um desses jovens promissores. Destacando-se nas tradicionais corridas Ekiden, que ocorrem em várias partes do país com competidores de idades variadas, ele pretendia trabalhar numa empresa de mineração de Fukushima, onde poderia continuar treinando. Ele não foi contratado, mas conseguiu emprego na Jieitai (força de defesa), que presta socorro em desastres naturais. Lá, sob a orientação de um bom técnico, conseguiu melhorar seus resultados, inclusive a nível internacional.

Nas Olimpíadas de Tóquio, Kokichi Tsuburaya, com 24 anos de idade, competiu na maratona (41 km), que foi vencido por Abebe Bikilia da Etiópia, que era o grande favorito, pois havia vencido os jogos de 1960 em Roma, na mesma modalidade. Tsuburaya estava em segundo lugar, quando, no final, foi ultrapassado pelo inglês Basil Heatley e terminou com a medalha de bronze. Tsuburaya havia batido seu próprio recorde, mas nunca se perdoou por não ter conseguido garantir o segundo lugar. Disse, após a prova, a um colega, que se sentia envergonhado por aquilo e que precisava trazer a medalha de ouro para o Japão nas próximas Olimpíadas que seriam no México em 1968.

Tsuburaya visitou no mesmo ano o Brasil, quando participou da Corrida Internacional de São Silvestre. Naquela época, o percurso era feito à noite e era calculado para terminar à meia-noite do dia 31 de dezembro. Soltava-se fogos de artifício e celebrava-se o início do Ano Novo. Era um grande evento. Em 1964, o belga Gaston Roelants venceu, o espanhol Mariano Haro ficou em segundo, e o japonês Kokichi Tsuburaya chegou em terceiro lugar no percurso de 7.400 metros.

Kokichi Tsuburaya continuou competindo representando a Jieitai e por uma universidade, se preparando para os jogos de 1968, entretanto, no dia 9 de janeiro de 1968, ele cometeu suicídio em seu dormitório, no alojamento da Jieitai em Tóquio. Deixou duas cartas, uma para seus pais e irmãos, e outra para colegas da Jieitai. Na primeira carta, ele agradece cuidadosamente a seus pais e irmãos citando os pratos que eles serviram para ele no Ano Novo quando se reuniram na casa dos seus pais em Sukagawa, Fukushima. Para seus pais, ele pede desculpas e diz: “Kokichi está totalmente exausto, não consegue mais correr”. Tsuburaya fazia tratamento no calcanhar de Aquiles nos dois pés e tinha sofrido uma cirurgia de hérnia de disco, ficando internado por três meses e tendo alta em novembro de 1967.

Apesar de haver uma história de desilusão amorosa no passado desse atleta, a responsabilidade de estar impossibilitado de trazer a sonhada medalha para o Japão em 1968, deve ter pesado forte na sua trágica decisão de tirar sua própria vida aos 27 anos de idade. O fato causou forte comoção nacional na época, e ainda hoje Kokichi é reverenciado como um grande atleta, detentor da única medalha japonesa na maratona olímpica até hoje.

Embora tenham nascido na mesma cidade de Sukagawa, na província de Fukushima, Kokichi Tsuburaya e Eiji Tsuburaya (autor de Godzilla e Ultraman) não são parentes diretos. Eles foram homenageados juntos em 2021, quando a cidade declarou ambos como “Cidadãos Honorários”. Hoje, Eiji Tsuburaya tem um museu em sua homenagem, e Kokichi Tsuburaya tem seu nome no centro esportivo da cidade, onde tem um pequeno museu sobre sua vida.

Francisco Noriyuki Sato, jornalista e editor. Presidente da Associação Fukushima Kenjinkai do Brasil.

Texto em japonês que escrevi sobre as Olimpíadas de Tóquio e National Kid

jun 062024
 

Uma homenagem às escolas femininas da comunidade nipobrasileira: as Saihou Gakkou (escolas de corte e costura), as Biyouin (escolas de estética, de cabeleireiras) e as Kappou Gakkou (escolas de culinária)

Palestra proferida por Cristiane A. Sato no Pavilhão Japonês do Parque do Ibirapuera pelo Dia Internacional da Mulher, em 10 de março de 2024. Dividimos em capítulos aqui no site para facilitar a leitura.

INTRODUÇÃO

Nesta apresentação, falarei de um assunto pouco divulgado, mas que entendo ser um importante aspecto da história da vida privada da imigração japonesa no Brasil. É uma história que tive o privilégio de conhecer através de pessoas que viveram essa época, e através delas pude testemunhar o resultado daquilo que foi o fenômeno da Educação Feminina Japonesa no Brasil, que marcou gerações de mulheres e suas famílias.

Por ser a primeira vez que trago este assunto ao público, gostaria de agradecer à Celina Yamao, organizadora deste evento em homenagem ao Dia Internacional da Mulher no Pavilhão Japonês do Parque do Ibirapuera. Há alguns anos tento falar sobre a Educação Feminina Japonesa no Brasil, mas esta é a primeira vez que me dão de fato uma oportunidade de expor essa história, que acredito que surpreenderá vocês e trazer lembranças familiares para algumas de nós. Por isso, e por entender o valor das mulheres na prática e transmissão da cultura japonesa no Brasil, reitero meus agradecimentos aos administradores do Pavilhão Japonês, especialmente à Celina e ao Cláudio Kurita da Japan House de São Paulo, por organizarem este evento.

Só é possível entender a importância e o impacto da Educação Feminina Japonesa no Brasil se entendermos as condições de vida da época em que as escolas femininas da colônia surgiram, quase 100 anos atrás. Não é possível entender as limitações, o estilo de vida e os valores da geração de nossas avós e bisavós partindo das referências do modo de vida que temos hoje. Por isso, gostaria que observassem esta foto (slide 2: reunião de família de imigrantes japoneses no interior de São Paulo, 1930).

 COMO ERA A VIDA 100 ANOS ATRÁS

As pessoas desta família estão reunidas em torno de uma mesa grande montada fora da casa, são todos jovens e há bebês. É provavelmente uma celebração de Oshõgatsu (Ano Novo), estão todos usando as melhores roupas, uma elegante toalha branca na mesa, e apesar dos sorrisos e do registro de um momento feliz, a casa feita de troncos ao fundo, pequena e sem acabamento, e o sítio isolado indicam que a vida diária não devia ser nada fácil.

Basta observar que, naquela época, coisas que hoje consideramos imprescindíveis para o nosso dia a dia e até mesmo para a civilização contemporânea, não existiam (slide 3): Internet, smartphones, redes de lojas de roupas de preço acessível prontas para usar (fast fashion), de hipermercados, comida pronta, serviços de entrega rápida, forno de micro-ondas, medicamentos eficientes e vacinas disponíveis em farmácias. Imaginem ter que acender um fogão a lenha para esquentar um prato de comida, ou tomar banho em grandes latões com água esquentada sobre fogueiras ao ar livre, calçando guetás (sandálias de madeira japonesas) para não queimar os pés. Assim era a vida dos imigrantes no interior de São Paulo e do Paraná. Mesmo eletricidade e água corrente eram coisas que só haviam em poucos bairros privilegiados nas grandes cidades.

Em suma, a vida em 1930 era difícil e incerta. Doenças hoje praticamente erradicadas eram comuns, a mortalidade infantil era alta e até adultos eram afetados por surtos de varíola, sarampo, meningite, tuberculose e poliomelite. A expectativa média de vida para os homens era de 55 anos e era comum ver viúvas lutando para criar filhos pequenos sozinhas. Não havia seguridade social ou aposentadoria pelo INSS. Quase nada podia ser comprado pronto e por isso a vida era difícil e trabalhosa na cidade, e mais ainda no campo. Viver era uma grande incerteza por todos esses fatores, e no caso dos imigrantes japoneses havia um fator que aumentava as incertezas: os casamentos eram por Omiai, casamentos arranjados entre famílias (slide 4).

AS MULHERES NO JAPÃO DO PERÍODO MEIJI

No Japão desde o Período Meiji (1868~1912), no início do processo de modernização do país em moldes ocidentais, preconizou-se a importância da Educação Feminina. Não apenas os homens, mas as mulheres também precisavam obter conhecimentos técnicos sobre o modo de vida ocidental para que a sociedade japonesa se modernizasse e se tornasse competitiva com as nações industrializadas. Éditos imperiais autorizaram a criação de escolas femininas e jovens estudantes se tornaram a imagem da emancipação e da mulher moderna no Período Meiji (slide 5). Sob o ideal de criar uma sociedade melhor a partir da família, mulheres no Japão passaram a estudar para se prepararem para enfrentar as incertezas da vida, para terem uma profissão seja por aptidão ou por necessidade, mas também para serem boas mães e donas de casa. Para isso era preciso que administrassem a casa e a família como se fosse uma empresa, ou extensão da profissão do marido, um hábito que existe desde o Período Edo (1603~1867) principalmente nas famílias de shokunins (artesãos) e shõnins (comerciantes).

Um exemplo desse esforço pode ser visto nesta gravura ukiyo-e de 1887 chamada Kijo Saihou no Zu (Mulheres da Nobreza Praticando Costura) (slide 6), que retratou damas da corte do Período Meiji em trajes ocidentais aprendendo costura ocidental no Rokumeikan, um palacete construído em Tóquio onde a elite japonesa praticava cultura e etiqueta social ocidentais. É importante observar que na época as mulheres das elites no ocidente eram muito ociosas e, raramente, praticamente nunca, aprendiam a costurar, vendo isso como profissão para gente simples. Mas as aristocratas japonesas fizeram um enorme esforço de aprendizado (reparem que a dama na esquerda da imagem está fazendo uma casaca masculina, uma peça de alfaiataria complexa). As damas da nobreza japonesas, que tradicionalmente sempre se dedicaram à produção cultural e artística, se chocavam com a ociosidade das elites ocidentais. Assim, seguindo os ideais de modernização do governo Meiji, passaram a se dedicar a atividades técnicas que implicavam em aprendizado prático e de adaptação ao ocidente. Técnicas de corte e costura estilo ocidental (yõsai – porque existe a técnica de corte e costura japonesa, wasai, ainda hoje usada na confecção de quimonos) e o uso de máquinas de costura fez parte desse aprendizado técnico de ocidentalização. Naquela época, o fato de ter uma máquina de costura e usar vestidos ocidentais era um luxo que apenas moças da nobreza e filhas de banqueiros e ricos industriais podiam ter.

UMEKO TSUDA: EDUCADORA PIONEIRA

Uma dessas aristocratas pioneiras foi Umeko Tsuda, mulher cuja biografia por si só merece uma palestra específica por ter sido a integrante mais jovem da Missão Iwakura ao exterior, aos seis anos de idade (slide 7). A Missão Iwakura foi uma expedição de quase 2 anos organizada pelo Governo Meiji para pesquisar literalmente todos os aspectos da vida pública e privada da civilização ocidental. As informações obtidas por essa missão foram a base para que o governo japonês decidisse quais aspectos institucionais, tecnológicos e sociais do ocidente, devidamente adaptados à realidade japonesa, seriam aplicados na modernização do Japão. Quando a Missão Iwakura esteve nos Estados Unidos, Charles Lanman, Secretário do Governo Americano para a Delegação Japonesa, e sua esposa adotaram a pequena Umeko como filha. Educadora formada nos Estados Unidos, onde passou a infância e a juventude, Umeko Tsuda foi pioneira da educação feminina e fundadora da primeira universidade feminina do Japão, a Universidade Tsuda, que existe até hoje.

No início do século 20, a educação era muito cara e por isso vista mais como um privilégio do que uma necessidade, sendo que para as mulheres a educação era considerada um luxo desnecessário. Tsuda entendia que a modernização japonesa seria inócua se as mulheres não tivessem acesso a uma educação que as preparassem para a vida e para o futuro desafiador que se abria para o Japão. Assim, ela preconizou uma formação pragmática para as mulheres e estabeleceu preceitos de economia doméstica, que se popularizaram através do ensino público e que são ensinados até hoje nas escolas de nível médio. Através da economia doméstica, as educadoras japonesas transmitiram conhecimentos práticos para gerações de jovens mulheres poderem gerir as próprias vidas, casas e famílias com eficiência, preparando esposas e mães gestoras de lares e negócios no sentido mais preciso da palavra “economia” (cuja origem etimológica em grego significa “as regras da casa”). Em reconhecimento à visão e ao impacto profundo e duradouro do trabalho de Tsuda, o Governo Japonês a partir de 2025 emitirá em sua homenagem a nova série de notas de 5 mil ienes com a efígie da educadora pioneira do Período Meiji.

Considerando que a regra dos casamentos na sociedade japonesa eram pelo Omiai, da mesma forma que a família do noivo procurava apresentar o próprio filho como “um bom partido” sob o aspecto pessoal e profissional, a família da noiva procurava em contrapartida apresentar a filha como uma companheira ideal, devidamente preparada para apoiar o marido, gerar filhos, organizar uma casa e cuidar de tudo relacionado aos afazeres da vida diária: alimentação, vestuário, higiene, pagamento de contas, etc., para que o marido pudesse de dedicar quase que totalmente a sua profissão. Num mundo e numa época nos quais não existiam as comodidades que hoje desfrutamos, a vida adulta começava muito cedo: em média aos 20 anos de idade, homens e mulheres já estavam casados e formando suas próprias famílias. Haviam muitos avós na faixa dos 40 anos de idade, e bisavós aos 55 anos. Como todos viam a vida como algo curto e muito incerto, as gerações que nos antecederam procuravam atingir a maturidade social o quanto antes e a velhice era uma conquista de poucos.

Uma mulher educada no Japão significava que ela, além de saber ler e escrever, sabia fazer contas usando o soroban (ábaco japonês), produzir roupas para toda a família e têxteis para a casa, cozinhar e processar alimentos (principalmente fazer conservas, estratégico numa época em que não haviam geladeiras), tinha noções de higiene e de enfermagem (para cuidar de bebês e doenças na família) e era autodisciplinada. Redigir diários, ter conhecimentos de literatura, artes e bons modos eram características muito valorizadas nas mulheres por mais humildes que elas fossem, pois considerava-se que os filhos se aperfeiçoariam vendo o exemplo de suas mães.

(continua nos links abaixo)

1 – Esta matéria

2- https://www.culturajaponesa.com.br/index.php/guia-japao/educacao-feminina-japonesa-no-brasil/educacao-feminina-japonesa-no-brasil-2/

3 – http://www.culturajaponesa.com.br/index.php/guia-japao/educacao-feminina-japonesa-no-brasil/as-escolas-femininas-japonesas-no-brasil-3/

4 – http://www.culturajaponesa.com.br/index.php/guia-japao/educacao-feminina-japonesa-no-brasil/as-escolas-femininas-japonesas-no-brasil-4/

5 – http://www.culturajaponesa.com.br/index.php/guia-japao/educacao-feminina-japonesa-no-brasil/as-escolas-femininas-japonesas-no-brasil-5/

6 – http://www.culturajaponesa.com.br/index.php/guia-japao/educacao-feminina-japonesa-no-brasil/as-escolas-femininas-japonesas-no-brasil-6/

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maio 222023
 

A ABRADEMI, em conjunto com a Associação Fukushima Kenjin do Brasil, e com o apoio institucional do Consulado Geral do Japão e da Fundação Japão, realizará a palestra “100 anos de Noguchi Hideyo no Brasil”. Ele é natural de Fukushima e veio ao Brasil pela Fundação Rockefeller para estudar a febre amarela, em 1923, e trabalhou ativamente no Instituto Oswaldo Cruz em Salvador, na Bahia.

Memorial Noguchi Hideyo em Salvador, Bahia, tem sua vida contada em forma de mangá

Museu Memorial Noguchi Hideyo em Inawashiro, Fukushima, no lugar onde ficava sua casa, que continua preservada dentro desse edifício. https://www.noguchihideyo.or.jp/idm/english/

Noguchi Hideyo nasceu em 24 de novembro de 1876, na cidade de Inawashiro, no interior de Fukushima. É uma fria e pequena cidade (atualmente tem 12 mil habitantes), onde sua família se dedicava à agricultura. Com a idade de um ano e meio sofreu um grave acidente com fogo, que praticamente imobilizou a sua mão esquerda, e nesse local não havia médicos. Só foi operado aos seis anos, recuperando parte dos movimentos. Daqui, contando somente com a sua dedicação, conseguiu sair para o curso superior em Tóquio, e dali para o mundo.

No Japão, no Memorial de Noguchi Hideyo, começou no dia 1º de Abril deste ano, a exposição sobre a vinda dele para a América do Sul com a finalidade de buscar a cura da febre amarela.

A palestra será ministrada pelo Dr. Mário Ikeda, o empresário que trouxe o cantor Itsuki Hiroshi ao Brasil. Ele cresceu ouvindo histórias que o avô dele, imigrante do pioneiro navio Kasato Maru, lhe contava sobre Noguchi Hideyo. Ficou tão curioso, que percorreu todos os lugares onde o cientista japonês esteve e juntou um bom material. Ele esteve também no Memorial em Fukushima.

Dia 3 de junho de 2023, das 10h30 às 12 h na Associação Fukushima, que fica na Rua da Glória, 721, no bairro da Liberdade, em São Paulo. Evento gratuito e aberto para o público em geral.

Acompanhe as atividades da Associação Fukushima Kenjin do Brasil: https://www.facebook.com/fukushimakenjinkaidobrasil