maio 132019
 


Mayu Miyazaki guardou as bagagens e se acomodou na apertada poltrona do Boeing da Qatar, em Narita, com destino a São Paulo. Olhou para cima e viu outros passageiros, todos desconhecidos, assentando suas bolsas, mochilas e sacolas. Cada passageiro tinha sua história, é claro, e o dia do embarque deve ter sido corrido para a maioria, mas esse dia 10 de abril tinha sido muito longo para essa menina de apenas 16 anos de idade.

No momento do famoso discurso

Há apenas algumas horas ela estava deixando o centro do palco do grande salão do Kokuritsu Gekijô (Teatro Nacional), de Tóquio, sob uma salva de calorosos aplausos, com um público de mais de 1800 pessoas, formado por deputados, professores e grandes empresários do país. Ela, uma brasileira, trineta de japoneses (5ª geração – gosei) por parte da mãe, e neta (3ª geração – sansei) por parte do pai, discursou naquele ambiente solene, para todo o Japão. Era a Cerimônia de Celebração pelos 30 anos de Entronização do Imperador Akihito, na verdade, um evento de despedida e homenagem ao casal imperial, que em 20 dias deixaria o trono para o príncipe Naruhito.

Mayu foi a última a ser chamada para discursar, aumentando o nervosismo da espera. Antes dela, oito pessoas discursaram, todos homens, e nenhum deles era jovem ou inexperiente. Pelo contrário, eram destacados formadores de opinião, como o professor Shinya Yamanaka, prêmio Nobel de Medicina, e o ator e diretor de cinema Takeshi Kitano. O primeiro-ministro Shinzo Abe e o Hiroaki Nakanishi, presidente da poderosa Federação Econômica (Keidanren) também falaram antes dela.

É certo que todos os convidados desfilaram belos discursos, mas a Mayu foi a única pessoa a falar sem levar o texto escrito. Na escola em São Paulo, ela teve a chance de praticar a oratória em japonês, mas nunca falou para um público tão grande e nunca se preparou para falar durante cinco minutos. E se o público esperava um discurso cheio de palavras e entonações erradas, ficou muito surpreso com a perfeição da dicção e a escolha cuidadosa das palavras. Foi um discurso impecável, e ao contrário dos discursos mornos que jovens japoneses costumam fazer, ela conseguiu transmitir emoção, talvez uma manifestação do seu lado brasileiro. Representando a comunidade japonesa de fora do país, ela disse que seus antepassados trabalharam duro, mas nunca puderam retornar ao Japão e presenciaram situações tristes em sua vida no Brasil. Mas graças a eles, ela pôde ter uma vida melhor e estudar. Lembrando a visita que fez ao casal de imperadores, ela disse: “Se os meus antepassados tivessem tido a oportunidade de falar com o casal imperial certamente se encheriam de lágrimas de felicidade. As mãos quentes da imperatriz e o olhar gentil do imperador nos deram coragem e força”. Ao final de suas palavras, ela diz “Eu sou brasileira e amo o Brasil, mas o Japão está dentro de mim”.

A apresentadora de TV e jornalista internacional, Kaori Arimoto, assistiu à Cerimônia e se emocionou com o discurso de Mayu. Ela conseguiu autorização junto ao comitê organizador do evento para exibir a apresentação da brasileira no seu programa Toranomon News, e lamentou que nenhuma outra emissora tenha exibido esse trecho do evento, que ela considerou o mais valioso daquele dia.

Depois de mais de 30 horas de viagem, foram apenas quatro dias no Japão, o que é muito cansativo, mas Mayu sabia que tinha mesmo valido a pena. Na viagem de volta, ela sentiu principalmente o alívio por ter cumprido a maior missão de sua vida: representar o Brasil, a comunidade nikkei e a comunidade brasileira que vive no Japão.

Tudo começou muito antes

Mayu na formatura do curso de japonês

Apesar do convite para a participação da Mayu Miyazaki naquele memorável evento tenha chegado no mês de março, tudo começou muito tempo atrás. Atual estudante do 3º ano do Colégio Etapa, ela estudou no Colégio Oshiman e estuda o idioma japonês na Escola Shokaku, do mesmo grupo. O colégio Oshiman realiza uma excursão a cada dois anos para o Japão, sempre no final do ano. Mayu fez parte do último grupo, que viajou em dezembro de 2018. Antes disso, a professora pediu para que a Mayu escrevesse uma mensagem ao casal imperial para mandar para o Japão. A jovem estava no período de férias e confessou que estava com preguiça, mas acabou escrevendo uma mensagem de felicitações pelo ano novo, avisando que iria integrar o grupo de 32 alunos da escola que visitaria o Palácio Imperial, e que gostaria de se encontrar com o casal. Ela levou o texto para a escola e a professora corrigiu. Voltou e reescreveu por cinco vezes e depois passou a limpo, caprichando bem nas letras.  A carta foi lida pelo Imperador, e no dia dois de janeiro deste ano, o grupo foi recepcionado pelo próprio casal imperial, o que só havia acontecido uma única vez em 22 visitas feitas em 44 anos pela escola. 27 mil pessoas estavam no jardim do Palácio Imperial para ver de longe o breve discurso e aceno do imperador. E o grupo do Oshiman foi convidado a entrar no salão do Palácio. Durante essa visita, a imperatriz Michiko chamou a Mayu Miyazaki pelo nome e fez questão de falar com ela. “Na hora eu estava muito nervosa, não sabia que seria chamada pela imperatriz, e só consegui agradecer”, explica a estudante.

A imperatriz Michiko comentou que “no idioma japonês o kanji é difícil e as palavras também são difíceis, mas deve se esforçar para aprendê-los. E agradeça a seus pais e seus antepassados por esse aprendizado”. Já o imperador Akihito falou “Espero que seus sonhos se realizem. Soube que quer ser uma médica”. “Foi muita emoção. Percebi que o imperador e a imperatriz são pessoas muito generosas. Todo o mundo estava chorando no final, tal a emoção em poder encontrar com eles”, conta Mayu.

Como resultado desse encontro, a Mayu recebeu depois um convite para participar da Cerimônia de Celebração pelos 30 anos de Entronização do Imperador Akihito. A professora Mayumi Kawamura Madueño Silva chefiou a delegação da Oshiman e também  acompanhou a Mayu na Cerimônia de Celebração.

Durante um campeonato de Kendô representando a província de Mie com o irmão Shogo.

O caminho para a fluência no idioma

“Tudo o que você planta você colhe, um dia terá retorno. Eu acho que todos os jovens precisam estudar”, disse Mayu numa entrevista ao vivo no canal Afrodeks TV de Leandro Neves dos Santos, quando ele pediu uma mensagem aos jovens brasileiros que trabalham no Japão.

De fato, conforme explica o pai, Carlos Yukito Miyazaki, estudar tem sido uma rotina na vida, não só da Mayu, mas de toda a família Miyazaki. Carlos e Márcia, os pais, são ambos descendentes de originários da província de Kumamoto e ex-bolsistas da JICA – Japan International Cooperation Agency, da turma de 1996~1998. Carlos havia sido bolsista também em 1991, e a Márcia acaba de retornar da bolsa de curta duração de revitalização através da culinária na comunidade nikkei, também da JICA.

Presbítero da Igreja Evangélica Holiness, Carlos conta que o casal assistiu a uma palestra onde se ressaltava a importância das pessoas serem bilíngues. Resolveram ser radicais para aplicar esse conceito. Em casa, passaram a se falar somente em japonês. A Mayu tinha então três anos de idade. “A primeira providência foi colocar os filhos no yochien (jardim da infância) do Colégio Itatiaia, e pedimos que eles ficassem junto com as crianças japonesas, filhos de expatriados. Em poucos meses ela ficou fluente. Depois mantivemos o hábito de somente assistir TV japonesa (animês, novelas, etc). Essa regra foi mantida até a Mayu completar dez anos”, comenta Carlos.  “Fizemos questão que ela estudasse japonês seguindo os livros utilizados nas escolas japonesas”, completa o pai, demonstrando a dedicação para que seus filhos, Mayu (16 anos), Shogo (15) e Aya (13) ficassem fluentes em japonês. No caso da Mayu, o seu êxito precisa ser dividido com uma grande figura, a professora Marico Kawamura, hoje com 91 anos de idade. Desde o início, essa fundadora do Colégio Oshiman acreditou no potencial da Mayu e fez questão de dar aulas de japonês pessoalmente, nos últimos seis ou sete anos, ensinando os detalhes de cada ideograma e seus significados nos poemas clássicos.

Fora isso, a família frequenta a igreja onde a maioria é nikkei. A Mayu treina kendô na Associação Cultural Mie Kenjin do Brasil, onde conseguiu o segundo “dan”. E, pela Associação Mie, ajuda todos os anos no estande de alimentação do Festival do Japão.

Com toda essa ligação com a comunidade nikkei, Mayu pensa em fazer o curso superior no Japão, ou mesmo a pós-graduação, e pretende trabalhar como médica no Brasil e no Japão. Vamos torcer para que os sonhos dela se concretizem. Capacidade e torcida ela têm.

Francisco Noriyuki Sato

Jornalista e editor, professor de História do Japão.

mar 262019
 

A bolsa de estudos e/ou estágio da JICA tem o nome de “Programa de Treinamento Nikkei”, porém, há quatro cursos de curta duração abertos aos interessados em geral, desde que atenda aos requisitos estabelecidos. São eles:

Cursos que não exigem ascendência japonesa:  (* favor verificar condições no manual)

C07: Saúde, assistência médica e assistência social comunitário – Métodos para aproveitamento de recursos sociais existentes em idosos com necessidade de cuidados;
C12: Educação infantil e atividades sobre cultura japonesa;
C14: Ensino de língua japonesa como língua de herança;
C20: Programa de intercâmbio para promover novas parcerias entre museus nikkeis.

A inscrição deve ser feita até o dia 12 de abril de 2019. A faixa de idade para todos os cursos acima é de 21 a 50 anos. Os pré-selecionados serão entrevistados entre 3 e 9 de maio de 2019, nas cidades de São Paulo, Brasília ou Belém. Todos os detalhes da bolsa, descrição dos cursos e os formulários estão no link: https://www.jica.go.jp/brazil/portuguese/office/activities/nikkeis01_01_01.html

Quem estiver interessado deverá correr, pois são muitos os documentos, que incluem exames médicos.

mar 012019
 

O curso é gratuito, aberto a participantes de todo o país, que desejam aprender japonês, mas nunca estudaram o idioma. As inscrições estarão abertas até o dia 17 de março

A Fundação Japão promove, de 22 de março a 25 de junho, um curso on-line de japonês para aqueles que não conhecem ainda o idioma. O Curso de Japonês Online Marugoto A1-1 (Katsudoo & Rikai) é gratuito e inclui seis aulas ao vivo com professor-tutor, com interação com os demais alunos, correção de tarefas e certificado de conclusão do curso.

O curso é voltado àqueles que tem o sonho de trabalhar ou estudar no Japão, ou apenas visitar o país ou compreender animes e mangás, bem como se comunicar no idioma.

É uma grande oportunidade especialmente para aqueles que não têm tempo ou condições financeiras para participar de um curso presencial. 

O curso utilizará o site Marugoto Japanese Online Course para a realização de tarefas, que serão corrigidas individualmente pela professora-tutora.

As aulas ao vivo acontecerão a cada duas semanas, sempre às terças-feiras, das 20h às 20h40 (horário de Brasília), nas seguintes datas: 26 de março, 9 de abril, 23 de abril, 7 de maio, 21 de maio e 4 de junho.

As inscrições estarão abertas a partir das 12h do dia 1º de março de 2019, até a meia-noite de 17 de março de 2019. Interessados deverão acessar o site https://minato-jf.jp, bem como preencher o cadastro no site  https://fjsp.org.br/site/wp-content/uploads/2018/09/panfletoMINATO_com_link.pdf.

Como as vagas são limitadas, após efetuar a inscrição, interessados deverão aguardar um e-mail com a confirmação da inscrição.

fev 142019
 

Formação da Próxima Geração da Comunidade Nikkei

Este curso tem como objetivo a formação de recursos humanos, que possam contribuir para o desenvolvimento das comunidades nikkeis e no fortalecimento da relação desses países com o Japão, através do treinamento a ser realizado. O foco deste curso é fazer com que os universitários, descendentes de japoneses, com qualificação suficiente para contribuir para o futuro do desenvolvimento das comunidades nikkeis, conheçam melhor o Japão e também sobre suas raízes, além de fortalecer a sua identidade como nikkei por meio de estudos sobre a história da imigração japonesa, estágios nas universidades, e demais treinamentos.

Serão selecionados 20 pessoas de 9 países, e 9 participantes serão do Brasil.

A vantagem desse curso é que acontece durante as férias escolares do Brasil. Data da Chegada ao Japão: 26 de junho de 2019 (quarta-feira) – Data da saída do Japão: 19 de julho de 2019 (sexta-feira).

ATENÇÃO: o prazo para inscrição só vai até 20/fevereiro/2019!

Os requisitos:

Os candidatos deverão satisfazer todos os requisitos abaixo: (1) Ser imigrante japonês ou descendente até a terceira geração de imigrantes japoneses (ter pai ou mãe nissei). ※ Ser domiciliado no país contemplado neste programa. (2) Pertencer a uma instituição de ensino superior do país e que esteja na faixa etária de 18 a 30 anos, no período do curso. (3) Ter a anuência dos pais ou da pessoa responsável (no caso de ter 18 e 19 anos), (4) Ter a fluência em língua japonesa, o suficiente para o dia-a-dia (do nível 4 de proficiência de língua japonesa para cima), e em inglês para poder assistir às aulas ministradas nesse idioma, bem como para participar das discussões nas universidades japonesas. (5) Ter boa saúde física e mental para o convívio coletivo no Japão. (6) Por regra, participar de toda Programação desde a data de chegada até o término do curso.

Maiores informações e inscrição: https://www.jica.go.jp/brazil/portuguese/office/activities/nikkeis01_01_04.html

jan 252019
 

Uma sala de aula somente com estudantes estrangeiros na Universidade de Kanazawa © NSP Editora

Boas e disputadas universidades. Mas isso não é mais garantia de um bom emprego.

Apesar de toda essa pressão sobre o aluno, o nível geral das universidades japonesas está caindo na média internacional. O levantamento “World University Rankings” lista as 980 melhores universidades do mundo. Até 2014, a Universidade de Tóquio se manteve em 23º lugar, sendo considerada a melhor da Ásia. Em 2016, a mesma universidade despencou para a 39ª colocação, sendo superada pela Universidade Nacional de Cingapura e duas chinesas.

Outras universidades japonesas aparecem em posições inferiores e, mesmo assim, estão bem. Basta comparar com a Universidade de São Paulo, que com mais de 80 mil estudantes, é a melhor posicionada na América Latina. A USP está entre a colocação 251 e 300, na lista liderada pela inglesa Oxford.

No país onde o ensino é levado a sério, críticos afirmam que, apesar dos rigorosos exames para se entrar numa universidade japonesa, depois de aprovados os alunos se sentem no paraíso. Ou seja, falta um exame rigoroso para diplomar os universitários e por isso, estudando ou não, todos serão aprovados. Mais uma vez, na área de exatas, onde há experiências em laboratório e atividades experimentais, os alunos tendem a se esforçar mais. Os universitários japoneses, embora sejam os campeões em matemática e ciências exatas, não apresentam bons resultados nas áreas de humanas e linguística, se comparados com os de outros países desenvolvidos. Além disso, estudiosos do exterior afirmam que o sistema de ensino japonês não desenvolve o espírito crítico dos estudantes. Talvez isso nem fosse necessário numa época de economia estável.

Sem uniforme e com horários mais flexíveis, as universidades parecem ideais para incentivar a criatividade. Entretanto, as aulas costumam ser expositivas © NSP Editora

Até o final da bolha econômica, por volta do final dos anos 90, todos os universitários tinham certeza de conseguir emprego. As grandes empresas contratavam os alunos das melhores universidades antes mesmo de se formarem. Não importava a área de formação. A partir do momento em que eram contratados, recebiam treinamento e ocupavam uma função, faziam carreira e ficavam na mesma empresa até se aposentarem. Hoje tudo mudou, muitos com formação superior não chegam a ter o primeiro emprego, e assim, sobrevivem às custas de trabalhos temporários, que são relativamente bem remunerados.

Embora todos os japoneses continuem investindo alto na educação formal de seus filhos, o resultado final não tem sido animador para os recém-formados.

Por outro lado, na última década, as universidades japonesas têm investido em trazer alunos estrangeiros para suas salas. Fenômeno da globalização? Na verdade não. É que a população japonesa vem diminuindo num ritmo acelerado e isso reflete também no número de alunos matriculados. As vagas que sobram são preenchidas pelos estrangeiros. Como existe a barreira do idioma, as universidades aceitam alunos com domínio do inglês e com um nível razoável de comunicação em japonês. Há aulas intensivas de japonês especialmente para esses alunos poderem acompanhar as aulas.

Felizmente, o Japão tem sido atraente para muitos estudantes estrangeiros. Hoje, em certas universidades, 20% dos alunos não são japoneses.

Autor: Francisco Noriyuki Sato

Leia os textos anteriores:
O sistema de ensino que forma um país desenvolvido – 1
O custo do ensino no Japão hoje – 2

Conhecendo uma escola colegial japonesa
Conhecendo uma outra escola colegial japonesa